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Homem de Kennewick: americano que viveu há 8.500 anos tem rosto reconstruído

Reconstrução facial realizada pelo designer 3D brasileiro Cícero Moraes revelou como seria indivíduo que viveu na América do Norte durante o início do Holoceno

O crânio do Homem de Kennewick e reconstrução completa de seu rosto - Crédito: Wikimedia Commons/Ghedoghedo; Divulgação/Cicero Moraes

Uma impressionante reconstrução facial revelou recentemente o rosto do Homem de Kennewick, que viveu na América do Norte há mais de 8 mil anos. O indivíduo, que tinha cerca de 1,73 metros de altura e pesava entre 70 e 75 quilos, recebeu o nome da cidade de Washington onde seus restos mortais foram descobertos. Ele tinha cerca de 40 anos na época de sua morte, ocorrida no início do período Holoceno.

Localizado em 1996 às margens do rio Columbia, o esqueleto é considerado um dos mais completos datados dessa era nas Américas e suscitou discussões sobre a colonização do continente. A nova reconstrução facial foi realizada com base em um estudo recente que utilizou o crânio do Homem de Kennewick para reconstituir suas características faciais.

Cicero Moraes, autor principal do estudo, destacou que a face resultante retrata um “homem forte e resiliente”, cujos traços sugerem uma vida marcada por esforços físicos contínuos e desafios à sobrevivência.

O processo de reconstrução

De acordo com o portal Sky News, a reconstrução foi alcançada através da combinação de “conhecimentos anatômicos com dados estatísticos”. Segundo Moraes, o processo começou com uma análise do crânio utilizando médias conhecidas da espessura dos tecidos moles e diretrizes anatômicas para posicionar características como olhos, nariz, lábios e orelhas. “Essas referências são baseadas em grandes conjuntos de dados, incluindo imagens médicas como tomografias”, explicou.

Em seguida, a cabeça de um doador digital foi adaptada anatomicamente para corresponder à estrutura do crânio de Kennewick, permitindo que o rosto fosse moldado de maneira a seguir padrões biológicos realistas. O resultado, diz ele, é uma aproximação facial básica.

Este método resulta em uma representação objetiva da face, baseada apenas na forma do crânio, sem características subjetivas como cabelo ou tom de pele. No entanto, uma segunda versão mais especulativa inclui esses elementos, conferindo ao modelo uma aparência mais vívida.

Traumas identificados

Moraes ressaltou que as dificuldades enfrentadas pelo Homem de Kennewick eram evidentes não apenas em seu rosto, mas também em seus ossos. O indivíduo sofreu múltiplos traumas físicos ao longo da vida, incluindo uma pequena depressão craniana, costelas fraturadas e uma ferida causada por projétil de lança, cuja ponta permanecia embutida em seu ílio direito.

Além disso, o esqueleto apresentava desgaste dental significativo e uma condição conhecida como “orelha do surfista”, que se caracteriza por crescimentos ósseos no canal auditivo devido à exposição repetida à água fria.

Moraes observou: “Embora ele tenha sofrido de osteoartrite leve em alguns lugares, a maioria de suas lesões graves – como as fraturas nas costelas e na pelve – sobreviveram por anos, pois ocorreram durante a juventude.”

A causa exata da morte permanece desconhecida; contudo, as lesões no ombro teriam ocorrido próximo ao momento do falecimento.

Um achado importante

Moraes afirmou que os restos são considerados “um dos esqueletos humanos mais importantes já encontrados na América do Norte”. Especialmente porque trouxeram novas perspectivas sobre o debate científico acerca dos primeiros habitantes das Américas serem classificados como “Paleoíndios” ou “Paleoamericanos”.

Os defensores da primeira teoria acreditam que os primeiros americanos são ancestrais dos nativos modernos, enquanto outros argumentam que eles são não relacionados e podem ter origem em linhagens asiáticas ou europeias extintas.

No entanto, conforme afirmado pela antropóloga Ann Kakaliouras em um artigo publicado em 2019, o Homem de Kennewick ajudou a esclarecer essa questão ao marcar “o fim de uma antiga América do Norte não indígena”.

Moraes concluiu: “A pesquisa sobre seus restos ampliou significativamente nossa compreensão sobre a ocupação do continente e ajudou a refinar teorias antigas sobre a migração humana inicial nas Américas. Além dos dados científicos, esses estudos também permitiram que os pesquisadores vissem aspectos da sua vida cotidiana – quase como se uma pequena janela para o passado tivesse sido aberta, nos dando uma rara oportunidade de testemunhar como ele pode ter vivido.”

A pesquisa foi publicada na revista OrtogOnLineMag.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.