Há 1.900 anos, romanos usavam fezes humanas como remédio
Novo estudo aponta que os antigos romanos usavam fezes humanas como remédio há 1.900 anos, e usavam tomilho para disfarçar o cheiro; confira!

Análises químicas realizadas recentemente em flocos escuros encontrados dentro de um frasco de vidro romano datado de 1.900 anos revelaram as primeiras evidências diretas do uso de fezes humanas para fins medicinais. A substância, que foi misturada com tomilho para disfarçar o odor, pode ter sido utilizada no tratamento de inflamações ou infecções.
O arqueólogo Cenker Atila, da Universidade Sivas Cumhuriyet, na Turquia, compartilhou com a Live Science que, durante seu trabalho nos depósitos do Museu de Bergama, notou resíduos em alguns vasos de vidro. “Foram encontrados resíduos em um total de sete recipientes diferentes, mas apenas um forneceu resultados conclusivos”, explicou.
Em um estudo publicado no dia 19 de janeiro no Journal of Archaeological Science: Reports, Atila e sua equipe detalharam a análise realizada em um unguentarium específico, uma pequena garrafa de vidro usada para armazenar perfumes, óleos ou medicamentos. O frasco estava selado com argila na antiguidade e foi encontrado em uma tumba na antiga cidade de Pérgamo, localizada no oeste da Turquia.
“Quando abrimos o unguentarium, não havia nenhum cheiro ruim“, comentou Atila. Contudo, durante o tempo em que ficou armazenado, “o resíduo em seu interior passou despercebido. Eu o notei e imediatamente iniciei o processo de análise”.
A equipe utilizou cromatografia gasosa-espectrometria de massas (GC-MS) para identificar os compostos orgânicos presentes no resíduo escuro que foi raspado do interior do frasco. Dois dos compostos identificados — coprostanol e 24-etilcoprostanol — são tipicamente encontrados nos tratos digestivos de animais que metabolizam colesterol.
Os pesquisadores afirmaram que “a identificação consistente de estanóis — biomarcadores fecais validados — sugere fortemente que o unguentário romano originalmente continha material fecal“. Embora não tenha sido possível determinar com precisão a origem das fezes, a relação entre coprostanol e 24-etilcoprostanol indica que era humano.
Disfarce para o mal-cheiro?
Outra descoberta significativa no resíduo foi o carvacrol, um composto orgânico aromático presente em óleos essenciais derivados de certas ervas, repercute o Live Science.
Atila destacou: “nesta amostra, identificamos fezes humanas misturadas com tomilho. Como conhecemos bem as fontes textuais antigas, reconhecemos imediatamente que se tratava de uma preparação medicinal usada pelo famoso médico romano Galeno”.
Pérgamo foi conhecida durante os séculos 2 e 3 como um importante centro da medicina romana, influenciada pelas ideias do médico e anatomista Galeno de Pérgamo, cujas teorias dominariam a ciência médica ocidental por séculos.
Os pesquisadores relataram que várias receitas populares baseadas em fezes eram utilizadas na medicina romana para tratar condições que variavam desde inflamações e infecções até distúrbios reprodutivos. Em um exemplo notável, Galeno mencionou o valor terapêutico das fezes de uma criança que consumira leguminosas, pão e vinho. No entanto, médicos antigos eram conscientes da repulsa que seus pacientes poderiam sentir ao utilizar medicamentos malcheirosos, razão pela qual frequentemente recomendavam a combinação com ervas aromáticas, vinho ou vinagre.
Os pesquisadores concluíram que “este estudo fornece a primeira evidência química direta do uso medicinal de matéria fecal na antiguidade greco-romana”. Além disso, evidenciam que o odor desagradável das fezes era mascarado com ervas odoríferas intensas. “Essas descobertas estão em estreita consonância com as formulações descritas por Galeno e outros autores clássicos, sugerindo que tais remédios eram efetivamente praticados, e não apenas teorizados em textos”.