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Guernica africana é exibida ao lado de famosa pintura de Picasso

A obra do artista sul-africano Dumile Feni, que nunca foi exibida fora da África do Sul, faz parte da nova exposição “A História Não Se Repete, Mas Rima”

Guernica Africana de Feni - Créditos: Estate Dumile Feni e Dumile Feni Family Trust

A Guernica de Picasso, que foi exibida pela primeira vez no museu madrilenho, Reina Sofía, há 34 anos, agora está pendurada em uma versão menor para ser exibida na exposição.

Desenhada pelo falecido artista sul-africano Dumile Feni em 1967, a Guernica africana é uma obra inquietante repleta de profundidade, raiva e a perturbadora justaposição de homem e fera, luz e escuridão, inocência e crueldade. 

Na obra é possível observar um homem de três pernas com uma máscara grotesca no lugar do rosto e que empunha um bastão, uma vaca com o úbere cheio que amamenta um filhote, e pássaros que bicam restos de comida enquanto figuras sombrias surgem ao fundo, descreveu o The Guardian.

A fúria de Picasso que o inspirou o pintor surgiu do bombardeio nazista à cidade basca, que da nome à sua pintura. A de Feni, que está sendo expressada em carvão e lápis, foi resultado de sua vivencia sob o apartheid na África do Sul.

A nova exposição, “A História Não Se Repete, Mas Rima”, tem como objetivo “pegar obras de diferentes contextos culturais e geográficos e colocá-las lado a lado com Guernica”, explicou o diretor do Reina Sofía, Manuel Segade. A obra de Feni está na parede exatamente oposta à tela de Picasso e é a peça principal desta exposição.

O diretor revelou que assim como a arte ocidental relegou as mulheres a um segundo plano na história da arte, a história da arte também foi construída segundo parâmetros racistas que condenaram a arte africana ao artesanato ou à barbárie. 

A obra “Guernica Africana”, emprestada pela Universidade de Fort Hare, nunca foi exibida fora da África do Sul.

Dumile Feni

Mesmo sendo um desenhista compulsivo desde a infância, fascinado pela arte indígena africana, o artista nunca teve uma formação artística formal. 

No final de sua adolescencia, Feni se mudou para Joanesburgo, descobriu a cena cultural urbana que prosperava mesmo com o regime brutal e racista do apartheid. Foi lá que o desenhista teve contato com as obras europeias como Goya, Bosch e Picasso, que foi muito influenciado pela arte africana.

O artista morreu no ano de 1991, em Nova York, após passar cerca de quatro séculos em exílio

A professora de arte da University College London e curadora da exposição, Tamar Garb, afirmou que a própria Guernica de Picasso não poderia ter existido sem a escultura africana. “A invenção da estilização e da simplificação por Picasso, bem como a formalização da obra no início do século vinte através do cubismo, foi em grande parte produto, digamos, da observação e da valorização das práticas escultóricas africanas, que ele colecionou e conheceu”, finalizou.

Apesar de haver uma circularidade em um artista africano usar o modernismo europeu para reafirmar ou recalibrar sua relação com a arte africana, a curadora afirmou que a exposição se preocupa com o diálogo e não com a influência. “Nem sabemos se foi [Feni] quem lhe deu o nome de Guernica Africana”.

“Esse nome provavelmente foi dado à obra por um galerista ou um dos primeiros comentadores. O fato é que ele ficou feliz em usar o nome e em exibi-la com esse nome “.

Além disso, a curadora reforça que seria um erro comparar o tema de ambas. “A Guernica de Picasso era um grito de coração contra a guerra”, enquanto a de Feni é “a violência, a violência lenta e a violência real da tirania racista. Portanto, você poderia vê-la como um produto de uma sociedade muito violenta que desumaniza a maioria de sua população, mas não é equivalente ao tipo de bombardeio de um guerra. E acho que essa diferença também é importante ressaltar”.

O pergaminho de 53 metros, que ele trabalhou durante seus anos em Londres, intitulado “Você não reconheceria Deus nem se ele cuspisse em seus olhos” também está exibido na exposição. Em frente dessa sua obra está seu desenho a carvão de 1987, “Hector Pieterson”, que é a representação estilizada de uma fotografia de um menino de 13 anos que foi morto a tiros pela polícia da África do Sul e está nos braços de um homem.

Garb argumenta que Feni ocupa um lugar único na arte do século vinte, pois é um artista moderno que utiliza materiais de desenho, como carvão, lápis e giz Conté, numa escala quase inédita a nível mundial naquela época. “Se analisarmos as práticas de desenho a nível global na década de 1960, existem muito, muito poucos artistas, que trabalham numa escala épica e monumental”.


  • Sob supervisão de Giovanna Gomes