Notícias / Mundo

Reino Unido avalia cobrar taxa de turistas em museus nacionais

Proposta de taxa para turistas estrangeiros faz parte de plano para financiar as artes e manter gratuidade para o público local em espaços nacionais; entenda!

Visitantes observando obra no Museu Britânico, em Londres / Crédito: Getty Images

O governo do Reino Unido vem estudando a possibilidade de cobrar uma taxa de turistas internacionais para acesso às coleções permanentes de museus nacionais, em meio a uma busca por alternativas de financiamento para o setor cultural. A proposta integra uma série de medidas discutidas após a revisão do Arts Council England, responsável pela distribuição de recursos públicos para as artes.

Segundo o governo, é necessário encontrar soluções de longo prazo para sustentar financeiramente o setor, que enfrenta dificuldades. Entre as opções analisadas está a criação de uma taxa específica para visitantes estrangeiros, além de uma taxa hoteleira, que atualmente está em consulta pública.

A proposta de cobrança em museus, no entanto, enfrenta resistência. Alison Cole, diretora do think tank Cultural Policy Unit, criticou a ideia e defendeu alternativas. “Existe uma maneira muito melhor de salvar nossos maravilhosos museus cívicos e infraestrutura cultural em todo o país, e acreditamos que essa maneira seja através de uma taxa sobre hotéis”, disse ela.

Desde 2001, museus e galerias nacionais no Reino Unido mantêm entrada gratuita para todos os visitantes, política que impulsionou significativamente o turismo e o acesso à cultura. A possibilidade de rever esse modelo já havia sido considerada pelo Tesouro como parte de cortes orçamentários em novembro de 2025, mas acabou descartada após pressão de ministros da cultura, segundo o The Guardian.

Uma pesquisa independente do Art Fund indica que 72% do público apoia a implementação de uma taxa turística voltada a subsidiar a gratuidade nesses espaços, o que reforça o debate sobre novas formas de financiamento.

Propostas

As discussões fazem parte da resposta do governo às recomendações apresentadas por Margaret Hodge em dezembro, em sua revisão do Arts Council England. Entre os pontos abordados estão a necessidade de proteger o financiamento cultural de interferências políticas e simplificar processos burocráticos considerados excessivamente complexos.

O governo afirmou que pretende avaliar todas as recomendações, incluindo iniciativas para ampliar o acesso às artes e apoiar carreiras criativas, especialmente entre grupos sub-representados. Também foram anunciados investimentos, como um fundo de 8 milhões de libras para simplificar processos de candidatura a financiamento, permitindo que artistas dediquem menos tempo à burocracia.

Outro eixo da proposta envolve a descentralização do acesso cultural, com medidas para fortalecer cenas artísticas regionais. Entre elas, estão um investimento de 2 milhões de libras em iniciativas locais e a reintrodução de conselhos regionais de artes. O governo também sinalizou apoio a um maior envolvimento das comunidades no desenvolvimento de projetos culturais.

Darren Henley, diretor executivo do Arts Council England, afirmou que a instituição reconhece a necessidade de mudanças. Segundo ele, a organização “compreendeu plenamente” a importância de se tornar “mais simples e fácil de lidar” e planeja agilizar processos de monitoramento e financiamento nos próximos meses.

Além disso, o conselho pretende explorar novas formas de arrecadação, como investimentos com retorno financeiro reinvestido no próprio setor, incentivos fiscais e campanhas de filantropia. A proposta busca garantir que os recursos disponíveis tenham maior impacto ao longo do tempo.

A secretária de Cultura, Lisa Nandy, destacou a necessidade de ampliar o acesso à cultura no país. “Por muito tempo, os benefícios da cultura não foram distribuídos igualmente. Recuso-me a ficar de braços cruzados enquanto comunidades são esquecidas em nossa história nacional. A mudança precisa começar hoje. Essa mudança começa com um setor cultural que tenha orgulho e não tenha medo de contar toda a história da nossa nação.”

Ela também ressaltou o papel de um conselho reformado na promoção de oportunidades criativas. “Um Conselho de Artes reformado e independente estará no centro desta visão para alcançar, inspirar e nutrir jovens que, de outra forma, não teriam a oportunidade de serem criativos, muito menos de seguir uma carreira criativa.”

O debate sobre a cobrança de turistas em museus nacionais segue em aberto e faz parte de um conjunto mais amplo de medidas voltadas a garantir a sustentabilidade financeira do setor cultural britânico.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.