Guarda do Vaticano é investigado por suposto gesto antissemita
Incidente teria ocorrido durante evento que marcou os 60 anos da Nostra Aetate, enquanto o Papa Leão XIV condenava o antissemitismo

Um membro da Guarda Suíça do Vaticano, o menor exército do mundo e responsável pela proteção pessoal do Papa, está sendo investigado por supostamente ter feito um gesto obsceno de cuspir em direção a duas mulheres judias. O caso ocorreu em 29 de outubro, em uma das entradas laterais da Praça de São Pedro, durante uma audiência geral em que o Papa Leão XIV condenava publicamente o antissemitismo.
As mulheres faziam parte de uma delegação judaica convidada para a cerimônia que celebrou o 60º aniversário da Nostra Aetate — documento histórico do Concílio Vaticano II que redefiniu as relações da Igreja Católica com as religiões não cristãs e repudiou a acusação de que os judeus, como povo, seriam responsáveis pela morte de Cristo.
Em entrevista à agência católica austríaca Kathpress, a escritora e diretora de teatro israelense Michal Govrin relatou que, ao se aproximar da Praça de São Pedro acompanhada de Vivian Liska, diretora do Instituto de Estudos Judaicos de Antuérpia, foi alvo de um gesto de desprezo por parte de um guarda suíço.
“Ele nos lançou um sibilo visivelmente hostil, chamando-nos de ‘les juifs’ (os judeus)”, afirmou Govrin ao Kathpress. Segundo ela, ao ser confrontado, o guarda “cuspiu em nossa direção com claro desprezo”.
Investigação
Na segunda-feira, o porta-voz da Guarda Suíça, cabo Eliah Cinotti, confirmou que o caso está sob investigação interna. “Como é procedimento padrão, iniciamos uma apuração para garantir o profissionalismo dos guardas em serviço”, declarou. Cinotti acrescentou que o incidente teria começado quando “uma pessoa pediu uma foto”, mas enfatizou que “a Guarda Suíça se distancia completamente de qualquer forma de antissemitismo”.
Durante a audiência, o Papa Leão XIV — eleito em maio, após a morte do Papa Francisco — destacou a importância de combater o ódio religioso. “Não se deve esquecer que o primeiro foco da Nostra Aetate foi o mundo judaico”, disse o pontífice. “A Igreja Católica denuncia o ódio, as perseguições e as manifestações de antissemitismo dirigidas contra os judeus, em qualquer época e por qualquer pessoa”.
O episódio ocorre em um momento delicado nas relações entre o Vaticano e a comunidade judaica. O falecido Papa Francisco também havia condenado o antissemitismo, mas suas críticas à guerra de Israel em Gaza e o pedido, no final do ano passado, para investigar se o conflito configurava genocídio, provocaram tensões diplomáticas com o governo israelense.
Segundo o ‘The Guardian’, a investigação sobre o guarda suíço segue em andamento. Até o momento, o Vaticano não comentou oficialmente o caso.