Governo da Itália adquire obra rara de Caravaggio por R$ 183 milhões

Obra de 1598 que retrata Maffeo Barberini — futuro papa Urbano VIII — passa a integrar o acervo do Palazzo Barberini, em Roma, após décadas em coleção privada

'Retrato do Monsenhor Maffeo Barberini', de Caravaggio / Crédito: Divulgação/Barberini Corsini Gallerie Nazionali

O governo da Itália concluiu a aquisição de um raro retrato pintado por Caravaggio por quase 35 milhões de dólares (mais de R$ 183 milhões, na cotação atual), em uma das compras mais caras já realizadas pelo país no campo das artes. A obra, intitulada “Retrato de Monsenhor Maffeo Barberini”, passa agora a integrar o acervo permanente do Palazzo Barberini, em Roma.

Produzida por volta de 1598, a pintura pertencia anteriormente a uma coleção privada em Florença. O retrato representa Maffeo Barberini ainda jovem, antes de se tornar o Papa Urbano VIII. A escolha do Palazzo Barberini como destino definitivo da obra é considerada simbólica, já que o edifício foi posteriormente associado à trajetória do próprio retratado.

De acordo com o Ministério da Cultura italiano, a aquisição reforça o compromisso do país em preservar obras de relevância histórica e artística. O ministro Alessandro Giuli destacou o valor do retrato ao comentar a compra. “Esta é uma obra de excepcional importância”, afirmou em comunicado. “Tínhamos o objetivo de criar uma obra-prima artística que, de outra forma, estaria destinada ao mercado de arte e acessível apenas a estudiosos e entusiastas.”

Antes de ser incorporada definitivamente ao acervo público, a pintura havia sido exibida temporariamente no Palazzo Barberini em 2024, durante a mostra “Caravaggio: O Retrato Revelado”. Na ocasião, os proprietários concordaram em emprestar a obra, permitindo que ela fosse vista pelo público pela primeira vez.

Apesar de ter sido atribuída a Caravaggio ainda em 1963 pelo historiador Roberto Longhi, a pintura permaneceu por décadas longe de exposições públicas, sendo acessível apenas a um número restrito de especialistas. A raridade do acesso aumentou o interesse em torno do retrato ao longo dos anos.

“Este é o retrato de Caravaggio que todos queriam ver há décadas”, afirmou Thomas Clement Salomon, diretor das Galerias Nacionais de Arte Antiga, ao The New York Times em 2024.

Obra valiosa

Após o encerramento da exposição temporária, em fevereiro de 2025, a obra continuou em exibição durante a mostra “Caravaggio 2025”, realizada até julho do mesmo ano. Paralelamente, autoridades italianas conduziam negociações para a compra definitiva do retrato, oficializada em 10 de março.

Caravaggio, nascido em 1571, é amplamente reconhecido pelo uso do claro-escuro, técnica marcada por contrastes intensos entre luz e sombra. Sua produção inclui tanto cenas religiosas quanto temas mitológicos, mas retratos são relativamente raros em sua obra, o que aumenta ainda mais o valor do “Retrato de Monsenhor Maffeo Barberini”.

Especialistas atribuem cerca de 65 pinturas ao artista, que morreu aos 38 anos, repercute a Smithsonian Magazine. Nesse conjunto, apenas uma pequena parte corresponde a retratos, tornando a obra adquirida uma peça de destaque dentro de sua produção.

Para Salomon, a incorporação do retrato fortalece ainda mais a coleção do museu. “Temos a coleção mais importante de pinturas de Caravaggio e do estilo caravaggesco do mundo”, afirmou ao portal Artnet. “O retrato é extremamente importante para as Galerias Nacionais de Arte Antiga, ainda mais para o Palazzo Barberini.”

O valor histórico da obra também foi destacado desde sua redescoberta. Ao publicar sua análise, Roberto Longhi argumentou que o retrato era fundamental para compreender a abordagem de Caravaggio em retratos menos conhecidos, ressaltando a intensidade psicológica presente na pintura.

A especialista Maria Cristina Terzaghi, da Universidade Roma Tre, avaliou a aquisição como um avanço significativo para a pesquisa acadêmica. Segundo ela, a obra será submetida a restauração, o que permitirá estudos mais detalhados. “Está em bom estado”, afirmou, “mas não foi restaurado desde a década de 1960.”

A autenticidade do retrato também foi reafirmada por estudos recentes. O especialista Gianni Papi destacou que a atribuição a Caravaggio é amplamente aceita. As imagens da pintura, segundo ele, “não deixaram dúvidas” quanto à autoria.

Papi também comentou o valor pago pela obra, considerado elevado, mas compatível com sua relevância. “Caravaggio é o pintor mais icônico e famoso do mundo”, afirmou. “É muito dinheiro, mas também acessível. Poderia valer muito mais.”

Com a aquisição, o retrato deixa definitivamente o circuito privado e passa a integrar o patrimônio público italiano, ampliando o acesso a uma obra considerada fundamental para a compreensão da trajetória artística de Caravaggio e da história do retrato na arte ocidental.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.