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Ferramentas de pedra sugerem que hominídeos já se planejavam há 2,6 milhões de anos

Ferramentas de pedra descobertas no Quênia revelam que antigos parentes humanos já planejavam antecipadamente 600.000 anos antes do que se pensava

Ferramenta de lascas descoberta no Quênia / Crédito: Divulgação/Projeto de Paleoantropologia da Península de Homa/TW Plummer

Pesquisadores revelaram que ancestrais humanos transportavam pedras diversificadas por distâncias consideráveis, o que indica um grau de planejamento muito superior ao que se acreditava ser possível há 600.000 anos.

Um estudo publicado na sexta-feira, 15 de agosto, na revista Science Advances analisou 401 ferramentas de pedra encontradas no sítio arqueológico de Nyayanga, no Quênia, datadas entre 3 milhões e 2,6 milhões de anos atrás. Essas ferramentas pertencem ao estilo Oldowan, o mais antigo conhecido, que envolve a fabricação de ferramentas básicas por meio do lascamento de fragmentos de uma pedra utilizando outra. O que surpreendeu os pesquisadores foi o fato de que a maioria das rochas utilizadas provenha de locais situados a mais de 9,7 quilômetros de distância.

Embora chimpanzés (Pan troglodytes) sejam conhecidos por transportar pedras de granito para quebrar nozes a até 2 quilômetros, isso ocorre apenas em deslocamentos cumulativos e em distâncias mais curtas. A nova descoberta indica que os ancestrais humanos eram capazes de mover ferramentas por distâncias significativamente maiores, sugerindo uma habilidade aprimorada de planejamento.

“As pessoas frequentemente se concentram nas ferramentas em si, mas a verdadeira inovação do Oldowan pode, na verdade, ser o transporte de recursos de um lugar para outro”, afirmou em comunicado Rick Potts, coautor do estudo e paleoantropólogo no Museu Nacional de História Natural em Washington, D.C. “O conhecimento e a intenção de levar material pétreo a ricas fontes de alimento eram aparentemente parte integrante do comportamento de fabricação de ferramentas no início do Oldowan.”

As ferramentas mais antigas conhecidas remontam a cerca de 3,3 milhões de anos, quase um milhão de anos antes da origem estimada do gênero Homo. Essas ferramentas provavelmente foram criadas por ancestrais humanos como o australopiteco Lucy, mas eram feitas com materiais obtidos localmente ou a curta distância, geralmente não ultrapassando 3 quilômetros.

Por volta de 2 milhões de anos atrás, ancestrais humanos como Homo erectus passaram por mudanças significativas: houve aumento no tamanho do cérebro e do corpo, alguns migraram da África e começaram a cozinhar e consumir carne. Há também indícios de que esses primeiros ancestrais começaram a planejar melhor, tornando-se mais seletivos quanto às rochas utilizadas para fabricar ferramentas e buscando-as em distâncias consideráveis.

No entanto, as ferramentas encontradas em Nyayanga são 600.000 anos mais antigas do que as evidências anteriores que mostravam seleção e transporte a longa distância entre os ancestrais humanos e podem até mesmo preceder o surgimento do gênero Homo. Isso sugere que esses grupos já estavam compreendendo suas necessidades alimentares e como mapear mentalmente seu ambiente, conforme Potts.

Ferramentas de pedra encontradas no local / Crédito: Divulgação/Projeto de Paleoantropologia da Península de Homa/EM Finestone, JS Oliver

Fabricantes das ferramentas

Ainda não está claro qual espécie fabricou as ferramentas descobertas em Nyayanga.

“A menos que você encontre um fóssil de hominídeo realmente segurando uma ferramenta, não será possível dizer definitivamente quais espécies estão fazendo quais conjuntos de ferramentas de pedra”, comentou Emma Finestone, coautora do estudo e antropóloga biológica no Museu de História Natural de Cleveland.

No caso em questão, as ferramentas foram encontradas juntamente com fósseis atribuídos ao gênero Paranthropus, o que levanta dúvidas sobre se o transporte da tecnologia em núcleos e lascas era exclusivo do gênero Homo, conforme os pesquisadores destacaram no estudo.

Independentemente da espécie responsável pela produção das ferramentas, o fato de que elas foram transportadas por longas distâncias sugere uma inteligência muito maior do que a atribuída anteriormente aos nossos ancestrais.

“Os humanos sempre confiaram em ferramentas para resolver desafios adaptativos”, observou Finestone. “Ao entender como essa relação começou, podemos enxergar melhor nossa conexão com ela hoje — especialmente à medida que enfrentamos novos desafios em um mundo moldado pela tecnologia.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.