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Estado britânico ‘forneceu vítimas’ ao pior agressor sexual da história

Documento de 202 páginas expõe décadas de abusos físicos e sexuais cometidos em centro de detenção juvenil em Durham, na Inglaterra

Centro de Detenção de Medomsley - Getty Images

Um novo e devastador relatório revelou que o Estado britânico falhou de forma sistemática em proteger jovens detidos no Centro de Detenção de Medomsley, em Durham, permitindo que o que foi descrito como “o pior agressor sexual da história do país” abusasse impunemente de centenas de adolescentes.

O documento, publicado pelo Ouvidor de Prisões e Liberdade Condicional (PPO), concluiu que líderes em todos os níveis “falharam em seu dever” de proteger os jovens internados, e que as vítimas merecem um pedido público de desculpas. O centro operou de 1961 a 1987 em um antigo orfanato vitoriano e fazia parte de uma política do governo de Margaret Thatcher de aplicar “choques curtos e severos” a infratores de baixo nível.

Durante mais de duas décadas, centenas de meninos entre 17 e 21 anos foram espancados, humilhados e submetidos a abusos psicológicos e sexuais. O principal agressor, Neville Husband, que administrava as cozinhas do centro, estuprava de dois a três jovens por dia. Segundo o relatório, ele foi responsável por 388 dos 549 casos documentados de abuso sexual e operou “efetivamente fora do alcance da lei” por 18 anos.

O Estado estava lhe fornecendo vítimas”, afirmou o ouvidor Adrian Usher, ao The Independent. “Durante toda a sua carreira profissional, ele não foi pego — e isso exigiu o silêncio de muitos”.

Investigações

As investigações mostraram que denúncias chegaram a ministros, à polícia e ao Serviço Prisional, mas foram ignoradas ou descartadas. Usher classificou a liderança do centro como “profundamente incompetente”, dizendo que visitas de autoridades eram tratadas “como eventos sociais para tomar chá com o diretor”.

O governo britânico pediu desculpas formais às vítimas nesta quarta-feira, 12, ao divulgar o relatório de 202 páginas. O ministro da Justiça Juvenil, Jake Richards, disse: “As falhas apontadas são verdadeiramente estarrecedoras, e devemos garantir que nada parecido volte a acontecer”.

Em 2021, o governo havia pago £7,2 milhões a 1.651 sobreviventes, mas o número de vítimas reconhecidas já subiu para 2.852. Apenas oito ex-funcionários foram presos até hoje — dois deles por crimes sexuais.

Especialistas em direitos humanos classificaram o relatório como “insuportável”. Andrea Coomber KC, diretora da Howard League for Penal Reform, afirmou que “milhares de vidas jovens foram arruinadas sob um manto de segredo”, enquanto Pia Sinha, do Prison Reform Trust, chamou as conclusões de “lembrete sóbrio da importância da transparência e da responsabilização em instituições fechadas”.

Segundo o ‘Independent’, o governo anunciou a criação de um Painel de Proteção de Menores Sob Custódia, que revisará os processos de denúncia e garantirá que as vozes das crianças sob custódia sejam ouvidas.