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Crânios de Homo erectus encontrados na China reescrevem história humana no Leste Asiático

Pesquisa revela que crânios achados na China têm quase 1,8 milhão de anos e reacendem discussão sobre origem da espécie na África; entenda!

Reconstrução facial e fósseis de Homo erectus de Yunxian, na China / Crédito: Divulgação/Xiaobo Feng e Hua Tu

Uma nova análise alterou de forma significativa a cronologia da presença humana primitiva no Leste Asiático. Três crânios de Homo erectus descobertos na China central foram datados em quase 1,8 milhão de anos — cerca de 600 mil anos mais antigos do que se estimava anteriormente. O resultado posiciona os fósseis de Yunxian, na província de Hubei, como a evidência mais antiga de hominídeos na região.

O estudo, publicado na quarta-feira, 18 de fevereiro, na revista Science Advances, revisita achados encontrados entre 1989 e 2022. Até então, acreditava-se que os crânios tivessem aproximadamente 1 milhão de anos, com base na idade de dentes de animais localizados nas proximidades. Uma pesquisa posterior chegou a estimar 1,1 milhão de anos por meio de técnicas como ressonância de spin eletrônico e datação por séries de urânio. A nova investigação, porém, propõe uma revisão substancial dessa cronologia.

Christopher Bae, coautor do estudo e professor de antropologia na Universidade do Havaí em Manoa, afirmou que sentiu “absoluta surpresa” ao analisar os resultados iniciais. Segundo ele, a idade mais remota dos fósseis pode levar especialistas a reconsiderar o momento em que o Homo erectus surgiu, tradicionalmente situado há cerca de 2 milhões de anos na África. “Isso significa que precisamos considerar recuar a origem do Homo erectus ” para cerca de 2,6 milhões de anos atrás, disse Bae em um e-mail.

Por décadas, o Homo erectus foi considerado o primeiro parente humano a deixar o continente africano. Fósseis encontrados no sítio arqueológico de Dmanisi, na Geórgia, datados entre 1,78 milhão e 1,85 milhão de anos, eram vistos como a evidência mais antiga da presença humana na Ásia. No entanto, ferramentas de pedra descobertas em dois sítios na China, com idades estimadas em 2,1 milhões e 2,43 milhões de anos, já haviam colocado em xeque essa narrativa, por antecederem a suposta origem da espécie.

Reescrevendo a história

Para reavaliar a idade dos crânios de Yunxian, a equipe aplicou a técnica de datação por nuclídeos cosmogênicos. O método analisa a meia-vida de duas variantes químicas — Alumínio-26 e Berílio-10 — presentes no quartzo das camadas de sedimentos onde os fósseis foram encontrados. Ao medir o tempo decorrido desde que o material foi exposto aos raios cósmicos, os pesquisadores estimaram que os hominídeos viveram há aproximadamente 1,77 milhão de anos.

Ainda assim, permanece uma lacuna temporal relevante. Como as ferramentas de pedra chinesas são mais antigas do que os crânios, existe um intervalo de cerca de 600 mil anos entre as evidências fósseis e os artefatos mais antigos conhecidos na região, repercute o Live Science.

A proximidade cronológica entre Yunxian e Dmanisi sugere, segundo Bae, que o Homo erectus pode ter se espalhado pela Ásia em um intervalo relativamente curto. No entanto, há diferenças anatômicas importantes. Os crânios chineses apresentam cérebros maiores do que os exemplares de Dmanisi, apesar de terem idade semelhante. “Isso aponta para uma variação importante nos primeiros hominídeos fora da África”, disse Karen Baab, professora de anatomia da Midwestern University, em Illinois, que não participou do novo estudo, em um e-mail para o Live Science.

A nova proposta de datação também gerou cautela entre especialistas. Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres, afirmou que “seria realmente notável” se os crânios de Yunxian tivessem quase 1,8 milhão de anos, mas alertou que “colocar Yunxian em uma idade tão avançada a colocaria completamente fora de sincronia com o resto do registro fóssil”.

Trabalhos anteriores de Stringer e colaboradores sugerem que os fósseis de Yunxian poderiam pertencer a um grupo ancestral dos Denisovanos, que teriam surgido há cerca de 1,2 milhão de anos. Caso a nova datação esteja correta, será necessário revisar não apenas a história do Homo erectus, mas também hipóteses sobre a origem do Homo sapiens. Stringer conclui: “eu diria que certamente são necessários mais estudos sobre a datação do sítio arqueológico!”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.