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Reconstrução facial inédita de Homo erectus ‘dificulta’ compreensão da evolução humana

Crânio fossilizado da Etiópia combina traços do Homo erectus e do Homo habilis, indicando que características primitivas persistiram por centenas de milhares de anos.

Reconstrução facial do crânio DAN5 (Gona, Etiópia), mostrando a posição anatômica da face após segmentação e modelagem 3D / Créditos: Baab et al., Nature Communications

A reconstrução facial da cabeça de um ancestral humano foi realizada a partir de ossos e dentes fossilizados de 1,5 milhão de anos. No entanto, o resultado tem dificultado a compreensão dos cientistas sobre a evolução e a dispersão dos primeiros humanos.

No novo estudo, o crânio fossilizado reconstruído, chamado DAN5, compartilha características com o Homo erectus, considerado um dos primeiros parentes humanos a apresentar proporções corporais modernas. Além disso, o crânio também exibe possíveis características associadas a uma espécie anterior, o Homo habilis.

O fóssil DAN5

O estudo, publicado em 16 de dezembro na revista Nature Communications, mostra que a evolução humana foi mais complexa do que se imaginava, desde os primeiros ancestrais até o Homo erectus. O fóssil DAN5, encontrado na área de pesquisa de Gona, no norte da Etiópia, já havia sido descrito anteriormente em um estudo de 2020, publicado na revista Science Advances.

Datado entre 1,5 milhão e 1,6 milhão de anos, acredita-se que o fóssil pertença a uma pequena fêmea de Homo erectus, com base na forma e no tamanho do crânio. De acordo com informações repercutidas pela revista Live Science, a coautora do estudo, Karen Baab, afirmou que os cientistas já sabiam que o fóssil possuía um cérebro pequeno, mas que a nova reconstrução revelou que o rosto é mais primitivo do que o do Homo erectus africano clássico da mesma época.

Rosto primitivo

Isso pode indicar que a população da região de Gona manteve traços anatômicos de grupos humanos que haviam migrado da África cerca de 300 mil anos antes. A constatação reforça a ideia de que a evolução do Homo erectus não ocorreu de forma linear.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores utilizaram tomografias computadorizadas de alta resolução em fragmentos de ossos faciais e dentes fossilizados, o que permitiu a criação de um modelo tridimensional do crânio conhecido como DAN5. A análise revelou que, embora a caixa craniana seja semelhante à do Homo erectus, o rosto apresenta traços mais primitivos, tradicionalmente associados ao Homo habilis, como molares maiores e um nariz mais achatado.

Novas hipóteses

Além disso, uma combinação semelhante de características antigas e modernas já havia sido observada em fósseis encontrados em Dmanisi, na Geórgia. No entanto, o DAN5 é o primeiro fóssil africano a apresentar esse mesmo padrão, o que fortalece a hipótese de que o Homo erectus tenha evoluído principalmente na África. Por outro lado, o fato de o fóssil etíope ser mais recente do que os exemplares de Dmanisi sugere que essa diversidade anatômica persistiu no continente por centenas de milhares de anos.

Diante desse cenário, os pesquisadores afirmam que novos fósseis, datados entre um e dois milhões de anos, serão fundamentais para esclarecer se essa variação resulta de múltimas populações coexistindo, de processos migratórios complexos ou até de cruzamentos entre diferentes espécies do gênero Homo.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli