Conto desconhecido de Raymond Chandler será publicado 66 anos após sua morte
Um dos maiores escritores do século 20, Raymond Chandler terá conto inédito publicado em breve em revista literária; confira!

Uma nova narrativa não publicada de Raymond Chandler, um dos maiores autores do século 20, faz sua estreia na revista de literatura Strand esta semana. A obra sugere que Chandler pode ter enfrentado inseguranças anteriormente desconhecidas em relação ao seu talento como escritor.
Intitulada ‘Nightmare‘ (‘Pesadelo‘, em tradução literal), a história é uma intrigante vinheta que coloca Chandler, o criador do icônico detetive particular Philip Marlowe, do lado errado da lei. O autor se encontra em uma cela na ala da morte, aguardando execução por assassinato.
O editor-gerente da revista, Andrew Gulli, descreveu a narrativa como uma “excursão induzida pelo sono”, descoberta entre um acervo de documentos pertencentes à secretária e companheira de vida de Chandler, Jean Vounder-Davis. Esse acervo, que inclui a máquina de escrever de Chandler, poemas e cartas pessoais, foi leiloado em Nova York em dezembro.
Gulli tem um histórico de descobrir obras perdidas ou pouco conhecidas de diversos escritores renomados, incluindo Graham Greene, Truman Capote e HG Wells. Chandler, nascido em Chicago e naturalizado britânico, é autor de clássicos como ‘O Grande Sono’, ‘Adeus, Minha Linda’, ‘A Dama no Lago’ e ‘O Longo Adeus’. O autor faleceu em 1959, aos 70 anos.

A história também traz a figura da esposa de Chandler, Cissy, que segundo Gulli achou ‘Nightmare’ “muito engraçada“. Isso indica que a obra foi escrita antes da morte dela em dezembro de 1954, embora Gulli mencione que datar o texto com precisão se torna “complicado” após esse ponto.
Mais significativo é o conteúdo da narrativa curta, que aparentemente Chandler nunca teve a intenção de publicar. A história sugere uma falta de confiança nas próprias habilidades como escritor e promotor de si mesmo, diferente da imagem que costumava projetar.
“A frase mais reveladora em ‘Nightmare’ é o comentário de Chandler: ‘Isso me lembrará dos dias em que eu costumava receber manuscritos devolvidos’,” destacou Gulli.
Dificuldades de venda?
Chandler frequentemente gostava de mitologizar sua própria vida. Em 1933, ele disse a um amigo que “vendeu a primeira história que enviou” — referindo-se a ‘Blackmailers Don’t Shoot’, publicada na revista Black Mask naquele ano, conforme repercute o The Guardian.
No entanto, ‘Nightmare’ lança dúvidas sobre essa narrativa. Será que ele submeteu outros textos à Black Mask antes de sua estreia? Ou estaria ele relembrando suas primeiras ambições literárias em Londres ou os anos após a Primeira Guerra Mundial, quando trabalhou na indústria petrolífera?
Gulli considerou “totalmente plausível” que Chandler tenha enfrentado dificuldades para vender seus escritos antes de se dedicar integralmente à literatura policial no início dos anos 1930, após perder o emprego na indústria do petróleo.
“Seja qual for o contexto preciso, ‘Nightmare’ complica a interessante história de origem que Chandler gostava de contar,” afirmou Gulli. “Isso sugere uma trajetória literária diferente e menos bem-sucedida. Apesar de todos os seus esforços para parecer autoinventado, Chandler permaneceu, até para si mesmo, seu maior mistério.”
A autora britânica Sarah Trott, responsável pela biografia ‘War Noir’ sobre Chandler, comentou que a descoberta da nova história e outros documentos autenticados na coleção Vounder-Davis, incluindo cartas amorosas para Cissy, revela um lado “incrivelmente sentimental” do autor.
“A publicação de qualquer coisa nova de Chandler só o torna um escritor ainda mais multifacetado. Quanto mais descobrimos, mais complexo ele se torna,” declarou Trott. “Sejam seus romances policiais, contos ou poesias, Chandler foi um escritor indubitavelmente preocupado com a condição humana, e muitas das histórias e vinhetas descobertas nos últimos anos destacam como ele buscou entender as fraquezas, experiências e emoções humanas.”
Ela acrescentou: “‘Nightmare’ é interessante porque, superficialmente, parece um cenário de pesadelo, um homem acusado de um crime hediondo que não se lembra de ter cometido. A última frase entre colchetes dá a impressão de que se trata simplesmente do relato de um sonho horrível, um pesadelo literal.”
Contudo, a menção a Cissy sugere uma conexão ainda mais pessoal para o autor: o horror da rejeição por parte das editoras. “Assim”, complementa Trott, “temos acesso ao verdadeiro Chandler… O tom é mais íntimo do que nas obras sobre Marlowe.”