Cerveja como vacina? Cientista testa método inusitado de imunização
Virologista dos EUA usa leveduras modificadas para combater vírus perigoso, mas falta de revisão científica e ética gera polêmica em órgãos de saúde

Chris Buck, um virologista do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, desenvolveu uma cerveja artesanal que atua como vacina oral contra o poliomavírus BK. O experimento, realizado de forma independente na cozinha de sua casa, foi detalhado em um repositório de pesquisas chamado Zenodo no dia 17 de dezembro de 2025. Embora o pesquisador afirme ter gerado anticorpos em si mesmo e em familiares, a falta de testes clínicos formais e a natureza caseira da produção acenderam alertas sobre segurança e ética na comunidade médica.
Inovação na cozinha
O alvo da “cerveja vacinal” é o poliomavírus BK, um agente infeccioso comum que permanece latente na maioria das pessoas, mas que pode causar danos renais graves e até câncer em pacientes com o sistema imunológico enfraquecido, como transplantados. Para criar o imunizante, Chris Buck alterou a levedura Saccharomyces cerevisiae, usada na fabricação de cervejas e pães, para que ela produzisse partículas semelhantes ao vírus.

Essas partículas não causam a doença, mas treinam o sistema imunológico para reconhecê-la. Conforme informações divulgadas pelo portal ICTQ, o virologista decidiu testar o método por conta própria devido à lentidão burocrática no desenvolvimento de vacinas tradicionais.
Desafio aos protocolos
Durante cinco dias, o cientista consumiu um copo diário da bebida, repetindo o processo em doses de reforço após algumas semanas. Em entrevista exclusiva à Science News, o pesquisador defendeu sua autonomia: “A burocracia está inibindo a ciência, e isso é inaceitável para mim. Uma semana de pessoas morrendo por desconhecerem isso não é trivial”, afirmou Chris Buck.
O virologista também contou com o apoio de seu irmão, Andrew Buck, que ajudou a registrar os dados e também consumiu o produto. No entanto, o experimento envolveu um número muito reduzido de pessoas, o que impede conclusões definitivas sobre a eficácia do método em larga escala.
Debate sobre segurança
A reação das autoridades de saúde foi imediata. Comitês de ética dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) desautorizaram a prática, alegando que testes em seres humanos devem seguir protocolos rigorosos de segurança.
Além disso, especialistas ouvidos pela CNN Brasil alertam que a divulgação de dados sem revisão por outros cientistas pode alimentar a desinformação e prejudicar a confiança pública nas vacinas tradicionais. Para contornar as restrições institucionais, o virologista fundou a Gusteau Research Corporation, uma organização sem fins lucrativos inspirada na ideia de que qualquer pessoa pode produzir ciência, o que reacendeu as discussões sobre os limites entre a pesquisa privada e a saúde pública.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes