Transplante com células-tronco mantém pacientes em remissão por 15 anos
Tratamento experimental levou dois pacientes com doença autoimune rara à remissão prolongada sem uso contínuo de medicamentos

Duas pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro da neuromielite óptica (NMOSD), uma doença autoimune grave e potencialmente fatal, permanecem em remissão há 15 anos após receberem um transplante de células-tronco. O resultado foi descrito em um estudo publicado em 15 de junho na revista científica Med e sugere que a substituição do sistema imunológico pode representar uma alternativa promissora para casos específicos da doença.
Segundo os pesquisadores, um homem e uma mulher apresentaram melhora significativa do quadro clínico após passarem por apenas uma infusão de células-tronco. Atualmente, ambos não precisam utilizar medicamentos contínuos para controlar os sintomas da doença e permanecem sem recaídas.
A neuromielite óptica é caracterizada pela produção de anticorpos que atacam estruturas importantes do sistema nervoso, incluindo a medula espinhal e o nervo óptico, responsável por conectar os olhos ao cérebro. Entre os sintomas associados à condição estão dores oculares, perda de visão, vômitos, fraqueza muscular e até paralisia dos braços e das pernas.
Remissão após uma única infusão
De acordo com o estudo, os dois pacientes haviam passado anteriormente por tratamentos convencionais, mas não obtiveram resultados satisfatórios. Diante da ineficácia das terapias contínuas, os médicos optaram pela realização do transplante de células-tronco.
O procedimento teve como objetivo restaurar completamente o sistema imunológico dos pacientes. Para isso, eles receberam células-tronco de seus respectivos doadores em uma única infusão.
Conforme o portal Galileu, os pesquisadores relatam que, ao longo de mais de 15 anos de acompanhamento, os dois pacientes permaneceram livres de recaídas sem a necessidade de imunossupressão contínua. Além disso, houve melhora na qualidade de vida e desaparecimento permanente dos anticorpos associados à doença.
Segundo os autores, até o momento não existe uma terapia aprovada capaz de proporcionar aos pacientes um controle sustentado da doença sem tratamento contínuo e com eliminação completa dos anticorpos patogênicos.
Como funciona a substituição do sistema imunológico

As células-tronco utilizadas no tratamento tiveram a função de restaurar as células de defesa do organismo. Na prática, o procedimento promoveu uma substituição completa do sistema imunológico dos pacientes.
Após o transplante, os pesquisadores observaram que os novos sistemas imunológicos permaneceram estáveis ao longo dos anos. Eles também apresentaram características consideradas compatíveis com uma regulação imunológica aprimorada.
Para os autores do estudo, os resultados sugerem que, em situações específicas, a reposição do sistema imunológico pode oferecer controle duradouro da doença e até mesmo representar uma possível cura.
Benefícios observados ao longo do acompanhamento
O acompanhamento prolongado dos pacientes permitiu aos pesquisadores avaliar os efeitos do tratamento em longo prazo.
Além da ausência de recaídas, os participantes deixaram de depender de medicamentos utilizados para controlar os sintomas da neuromielite óptica. O desaparecimento permanente dos anticorpos responsáveis pelos ataques ao sistema nervoso também foi considerado um dos principais resultados observados.
Os autores destacam que a estabilidade do sistema imunológico ao longo dos anos reforça o potencial da abordagem para casos em que os tratamentos convencionais não apresentam resultados satisfatórios.
Efeitos colaterais e necessidade de novos estudos
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que o estudo envolveu apenas dois pacientes. Por isso, novas pesquisas serão necessárias para confirmar a segurança do procedimento e identificar quais pessoas podem se beneficiar desse tipo de tratamento.
Os participantes também apresentaram efeitos colaterais após o transplante. Entre eles estavam linfonodos inchados, deficiência de alguns anticorpos e câncer de bexiga.
Segundo os autores, o surgimento de cânceres secundários não é incomum após transplantes de células-tronco. Por esse motivo, a utilização da técnica deve levar em consideração os riscos envolvidos e ser avaliada principalmente em situações nas quais os tratamentos convencionais se mostram ineficazes.
Embora os resultados indiquem um caminho promissor para o tratamento da neuromielite óptica, os cientistas ressaltam que ainda são necessários estudos mais amplos para determinar o real potencial da abordagem e estabelecer critérios seguros para sua aplicação futura.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes