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Estudo revela quanto tempo tartarugas marinhas levam para recalcular sua rota durante migração

Experimento acompanhou tartarugas-verdes por mais de mil quilômetros e mostrou que os animais podem levar até 24 horas para ajustar gradualmente sua direção durante a viagem

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) nadando; experimento sugere que reprogramação de rota de tartarugas é lento e gradual, não repentino - RD e BS Kirkby

As tartarugas marinhas utilizam o campo magnético da Terra como uma espécie de “bússola interna” para realizar suas longas migrações pelos oceanos. Agora, um novo estudo revelou que, quando precisam corrigir sua direção durante o percurso, esses animais não fazem mudanças bruscas de rota. Em vez disso, podem levar até 24 horas para concluir esse processo.

Os resultados foram publicados na última quarta-feira, 24, na revista científica Science Advances e ajudam a compreender melhor como funciona o sistema de navegação desses répteis marinhos durante deslocamentos que podem ultrapassar mil quilômetros.

A pesquisa foi conduzida pelo ecólogo marinho Graeme Hays, professor da Universidade de Deakin, na Austrália, em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos, Itália e Reino Unido.

Rastreamento acompanhou migração por mais de mil quilômetros

Para realizar o estudo, os pesquisadores instalaram dispositivos de rastreamento via satélite em seis fêmeas adultas de tartaruga-verde (Chelonia mydas) logo após o período de desova no arquipélago de Chagos, localizado no oceano Índico.

Como repercutido na Folha, as tartarugas foram acompanhadas durante toda a migração até as ilhas Seychelles ou ao Banco Saya de Malha, região situada entre Madagascar, Seychelles e a ilha Maurício, no planalto submarino de Mascareno.

Alguns indivíduos percorreram mais de mil quilômetros, em viagens que duraram, em média, 27,5 dias.

Como os equipamentos transmitiam informações continuamente aos pesquisadores, foi possível registrar detalhadamente cada alteração de direção realizada pelos animais durante o trajeto.

Mudanças de direção acontecem de forma gradual

Os dados mostraram que as tartarugas mantêm uma direção extremamente consistente durante longos períodos, tanto durante o dia quanto à noite.

Quando precisam corrigir o percurso, porém, elas não alteram imediatamente o rumo. Em vez disso, realizam curvas graduais que levam entre 15 e 24 horas para serem concluídas.

Segundo Graeme Hays, os resultados indicam que as tartarugas provavelmente sabem para onde precisam seguir, possivelmente utilizando um “mapa magnético”, mas respondem às mudanças de rota de maneira mais lenta do que os cientistas imaginavam.

De acordo com o pesquisador, o comportamento observado sugere que os animais fazem ajustes progressivos, avaliando continuamente se a nova direção é mais adequada, em vez de realizar uma correção instantânea.

Campo magnético ainda guarda perguntas

Os pesquisadores afirmam que ainda não está claro como as correntes oceânicas influenciam o sistema de navegação baseado no campo magnético da Terra.

Graeme Hays explica que, ao contrário do que ocorre com aves e insetos migratórios, bastante influenciados pelos ventos e outras condições ambientais, ainda há muitas dúvidas sobre a interação entre as correntes marinhas e a orientação das tartarugas.

Segundo ele, a descoberta sugere que o chamado “mapa magnético” utilizado pelos animais é relativamente simples, mas eficiente o suficiente para permitir que encontrem seus destinos mesmo após passarem horas, ou até dias, ligeiramente fora da rota.

Nova tecnologia amplia possibilidades de pesquisa

O pesquisador destacou ainda que o desenvolvimento da tecnologia utilizada no estudo levou cinco anos e representa uma mudança importante na forma de estudar a navegação de animais marinhos.

Segundo Hays, o novo rastreador permite diferenciar, pela primeira vez, a direção para a qual a tartaruga realmente está nadando daquela provocada pelas correntes oceânicas.

Embora o estudo tenha acompanhado apenas seis indivíduos, os pesquisadores pretendem ampliar as investigações no futuro, incluindo outras espécies migratórias, como focas e baleias.

Eles também esperam compreender melhor como alterações nas correntes oceânicas e os efeitos das mudanças climáticas podem influenciar a navegação desses animais e contribuir para a conservação das tartarugas marinhas diante das transformações ambientais.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes