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Cães que viveram há 10 mil anos tinham mais diversidade do que imaginávamos

Novo estudo aponta que, cerca de 10 mil anos atrás, metade da variação morfológica atualmente observada entre os cães já existia

Montagem com uma visualização das diferenças no formato do crânio entre cães - Crédito: Divulgação/Universidade de Exeter

Os cães, como espécie, apresentam uma diversidade impressionante, abarcando raças bastante distintas. Essa variedade é frequentemente atribuída ao período vitoriano, quando criadores começaram a padronizar raças para atender a diferentes perfis físicos. No entanto, uma nova pesquisa revela que essa diversidade já era visível há 50 mil anos, conforme evidenciado por uma análise dos crânios de canídeos ao longo da história.

A bioarqueóloga Carly Ameen, da Universidade de Exeter e co-autora do estudo publicado na revista Science, destaca que cerca de 10 mil anos atrás, metade da variação morfológica atualmente observada entre os cães já existia. “Isso realmente desafia nossas ideias sobre a origem da diversidade canina e a narrativa predominante de que ela teria sido criada na era vitoriana”, afirma Ameen.

Como destaca o New York Times, a origem dos cães domésticos a partir de lobos selvagens segue sendo um tema muito debatido entre os cientistas. A equipe internacional liderada por Ameen e Allowen Evin, bioarqueóloga da Universidade de Montpellier, examinou mais de 600 crânios de canídeos — que incluem tanto cães quanto lobos.

Entre esses crânios, mais de 150 eram de cães modernos, abrangendo raças puras e mestiços, enquanto 86 pertenciam a lobos atuais. Os demais exemplares foram coletados em sítios arqueológicos ao redor do mundo.

Os pesquisadores categorizaram os espécimes em duas classes: os mais antigos, datados de mais de 12.700 anos durante o Pleistoceno Superior, e os mais recentes, com menos de 11.700 anos do Holoceno.

Resultados

Os resultados mostraram que lobos e canídeos mais antigos possuíam crânios mais longos e estreitos do que os cães modernos. Em contraste, os crânios dos cães do Holoceno apresentavam uma gama maior de tamanhos e formas, com alguns sendo notavelmente mais curtos e largos do que os lobos. Ameen observou um aumento na robustez e compactação dos crânios nos espécimes mais recentes. Além disso, traços extremos encontrados em algumas raças modernas, como os focinhos achatados dos pugs, não foram identificados entre os fósseis arqueológicos.

Os pesquisadores também notaram características cranianas nos espécimes mais recentes que não são mais vistas em cães contemporâneos. Embora a razão para essa perda não esteja clara, Ameen sugere que algumas formas possam ter perdido sua funcionalidade ou apelo ao longo do tempo. “Talvez houvesse funções ou perfis de cães que não valorizamos tanto hoje quanto no passado”, comenta.

A pesquisa ainda identificou que o crânio canino mais antigo com características claramente reconhecíveis tem cerca de 11 mil anos; exemplares anteriores não apresentavam traços típicos dos cães domesticados. Melanie Fillios, arqueóloga antropológica da Universidade de Nova Inglaterra na Austrália — que não participou do estudo — ressalta a controvérsia em torno desses canídeos primitivos. Segundo ela, a nova análise sugere que muitos desses fósseis estão mais próximos dos lobos do que dos cães.

O que resta saber

Ainda não está claro o que impulsionou essa diversidade nos primeiros cães. Especialistas acreditam que fatores como a variabilidade entre lobos ancestrais e a convivência com humanos podem ter permitido a sobrevivência de características não viáveis na natureza. Ameen ironiza: “Chihuahuas não seriam bons lobos, certo? A domesticação permite que essas formas sobrevivam”.

Fatores adicionais como adaptações ambientais e mudanças dietéticas podem ter contribuído para a expansão dessa diversidade canina. Essa explosão ocorre paralelamente a um período de grande migração humana. Fillios observa: “Estamos vendo movimentos massivos de pessoas pelo mundo”.

Um outro estudo publicado na mesma edição da Science complementa essa discussão ao indicar que cães ancestrais frequentemente acompanhavam humanos em suas migrações e até mesmo eram comercializados por algumas sociedades. Guo-Dong Wang, pesquisador do Instituto de Zoologia de Kunming na China e co-autor da segunda pesquisa, salienta: “Os cães na Eurásia viveram e migraram com humanos de diferentes civilizações e modos de subsistência, como caçadores-coletores, populações agrícolas e pastores”.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.