Brilho misterioso no centro da Via Láctea pode reescrever teoria cósmica
Novas pesquisas sugerem que brilho misterioso encontrado no centro da Via Láctea pode reformular o que se sabe sobre a matéria escura; entenda!

Uma recente investigação científica trouxe à tona um novo entendimento sobre a forma da matéria escura nas proximidades do centro da Via Láctea, desafiando a visão tradicional que a considerava esférica. A pesquisa, que faz parte de simulações avançadas, sugere que essa matéria pode ser a responsável por um brilho de alta energia que intriga astrônomos há mais de uma década.
De acordo com o pesquisador Moorits Mihkel Muru, do Instituto Leibniz de Astrofísica de Potsdam, na Alemanha, e da Universidade de Tartu, na Estônia, quando o telescópio espacial Fermi observou o centro galáctico, detectou uma quantidade excessiva de raios gama. “Diferentes teorias competem para explicar o que poderia estar produzindo esse excesso, mas ninguém tem a resposta definitiva ainda”, afirmou Muru ao Live Science.
Inicialmente, os cientistas especularam que o brilho poderia ser resultado de colisões e aniquilações de partículas de matéria escura. No entanto, a forma aplanada do sinal observado não correspondia aos halos esféricos presumidos nos modelos tradicionais de matéria escura. Essa incongruência levou muitos pesquisadores a considerar uma explicação alternativa envolvendo pulsares milissegundos — estrelas de nêutrons antigas e rápidas que emitem raios gama.
Publicada em 16 de outubro na revista Physical Review Letters, a pesquisa liderada por Muru reavalia a suposição sobre a forma da matéria escura. Utilizando simulações detalhadas da Via Láctea, a equipe descobriu que a matéria escura próxima ao centro galáctico apresenta um formato achatado, semelhante ao sinal de raios gama observado.
Os raios gama são a forma mais energética de luz e costumam ser gerados em ambientes extremos do universo, como explosões estelares violentas e matéria girando em torno de buracos negros. Apesar de considerarem fontes conhecidas, os astrônomos continuam a detectar um brilho inexplicável proveniente do núcleo da Via Láctea.
Uma das explicações sugeridas é que essa radiação se origina da matéria escura — a substância invisível que compõe a maior parte da massa do universo. Alguns modelos indicam que as partículas de matéria escura podem colidir ocasionalmente, convertendo parte de sua massa em explosões de raios gama.
Como não há medições diretas da matéria escura, não sabemos muito sobre ela”, comentou Muru. “Uma teoria é que as partículas de matéria escura podem interagir umas com as outras e se aniquilar. Quando duas partículas colidem, elas liberam energia como radiação de alta energia.”
No entanto, essa teoria perdeu força quando a forma achatada dos raios gama não se alinhou com o formato esférico presumido para os halos de matéria escura.
Muru e seus colaboradores decidiram revisar a suposição fundamental de que a matéria escura na região interna da galáxia deve ser esférica. Utilizando simulações computacionais de alta resolução conhecidas como HESTIA, que recriam galáxias semelhantes à Via Láctea dentro de um ambiente cósmico realista, a equipe analisou o comportamento da matéria escura nas proximidades do centro galáctico.

Os resultados indicaram que fusões passadas e interações gravitacionais podem distorcer a distribuição da matéria escura, achatando-a em formas ovais ou retangulares — semelhante ao bulbo estelar observado no centro da galáxia.
“Nosso resultado mais importante foi mostrar que uma das razões pelas quais a interpretação da matéria escura foi desfavorecida veio de uma suposição simples”, afirmou Muru. “Descobrimos que a matéria escura próxima ao centro não é esférica — ela é achatada. Isso nos deixa um passo mais perto de revelar o que a matéria escura realmente é, usando pistas vindas do coração da nossa galáxia.”
Essa nova perspectiva implica que o padrão esperado dos raios gama resultantes da aniquilação da matéria escura poderia se assemelhar muito ao que os astrônomos observam atualmente. Em outras palavras, a explicação relacionada à matéria escura pode ter sido subestimada simplesmente devido ao uso do formato incorreto.
Próximos passos
Ainda que os novos achados reforcem a hipótese de que a origem do sinal dos raios gama esteja vinculada à matéria escura, isso não encerra o debate. Para distinguir entre as contribuições dos pulsares e da matéria escura, os astrônomos necessitarão de observações mais precisas.
“Uma indicação clara para a explicação estelar seria a descoberta de pulsares suficientes para explicar o brilho dos raios gama”, acrescentou Muru. “Novos telescópios com maior resolução já estão sendo construídos, o que poderia ajudar a esclarecer essa questão.”
Caso instrumentos futuros, como o Square Kilometre Array (SKA) e o Cherenkov Telescope Array (CTA), revelem diversas fontes pontuais no centro galáctico, isso favorecerá a hipótese dos pulsares. Por outro lado, se a radiação continuar suave e difusa, isso fortalecerá o cenário relacionado à matéria escura.
“Uma ‘prova cabal’ da matéria escura seria um sinal que correspondesse precisamente às previsões teóricas”, destacou Muru, ressaltando que tal confirmação exigirá tanto melhorias nos modelos quanto telescópios melhores. “Mesmo antes da próxima geração de observações, nossos modelos e previsões estão melhorando constantemente. Uma perspectiva futura é encontrar outros lugares para testar nossas teorias, como as regiões centrais de galáxias anãs próximas.”
A busca pela compreensão do excesso de raios gama perdura há mais de 10 anos, com cada novo estudo contribuindo para desvendar esse enigma cósmico. Seja qual for sua origem — se proveniente da matéria escura, pulsares ou algo totalmente inesperado — os resultados obtidos por Muru ressaltam como a estrutura da galáxia pode conter pistas essenciais. Ao redefinir nosso entendimento sobre o núcleo obscuro da Via Láctea, os cientistas estão cada vez mais próximos de responder uma das questões mais profundas da astrofísica moderna: o verdadeiro papel da matéria escura.