Altar maia de 1.300 anos pode ter significado profundo desconhecido, diz estudo
Famosa escultura de pedra maia conhecida como Altar Q, em Honduras, pode representar datas importantes do calendário maia com sinais de mão; entenda!

Uma nova pesquisa sugere que os Maias podem ter utilizado uma forma de “linguagem gestual” em um altar datado de aproximadamente 1.300 anos, possivelmente relacionada a datas significativas no calendário longo maia.
O autor do estudo, Rich Sandoval, um antropólogo linguístico da Metropolitan State University de Denver, afirma ao Live Science: “Este é o texto mais antigo em que, até onde sei, alguém conseguiu demonstrar que existe uma escrita real e bem definida usando sinais de mão, comparável a outros tipos de escrita. Outros pesquisadores e eu estamos bastante confiantes em afirmar que as convenções desses sinais de mão têm raízes na linguagem de sinais”. No entanto, sua interpretação não é unânime, e um especialista inclusive descreve suas conclusões como “implausíveis”.
A pesquisa foi publicada em 8 de março na revista Transactions of the Philological Society. Nela, Sandoval analisa o Altar Q, um altar retangular maia do final do século 8 localizado em Copán, Honduras. As quatro faces desse altar esculpido com intricados detalhes retratam 16 governantes de Copán, cada um com posições específicas das mãos e hieróglifos.
Desde meados do século 19, o Altar Q tem sido objeto de estudo. Sandoval considera-o “um dos artefatos mais históricos da Antiga Mesoamérica” e argumenta que podemos obter informações valiosas sobre essa escultura da época Clássica (250 a 900 d.C.) ao observar as mãos dos governantes. Ele nota que posições das mãos são frequentemente representadas na arte maia.
Segundo Sandoval, “em quase todos os lugares onde se vêem hieróglifos [maias], vê-se uma figura, muitas vezes no meio, pelo menos uma figura, às vezes várias figuras, segurando formas de mãos muito singulares. Então, decifrei essas formas de mãos como sinais de mão com significados muito específicos”.
A pesquisa sugere que os Maias tinham um sistema de escrita que incorporava duas formas distintas de escrita. Sandoval esclarece que muitos estudiosos anteriormente acreditavam que o sistema hieroglífico era a única forma de escrita maia; no entanto, sua investigação revela uma complexidade maior do que se pensava.
Traduzindo os maias
O sistema escrito conhecido dos Maias é composto por mais de mil hieróglifos que representam palavras e sílabas, muitos dos quais ainda permanecem indecifrados ou pouco compreendidos. Dado que o Altar Q apresenta tanto hieróglifos quanto sinais manuais, Sandoval o utiliza como uma espécie de “Pedra de Roseta” — embora ele argumente que, diferentemente deste artefato egípcio, os sinais manuais transmitem informações distintas das contidas nos hieróglifos.
Os sinais manuais nas quatro faces do Altar Q correspondem a datas específicas no calendário longo: 9.0.2.0.0 (27 de novembro de 437), 9.19.10.0.0 (30 de abril de 820), 9.16.13.12.0 (21 de outubro de 764) e 9.17.5.0.15 (7 de janeiro de 776). Para compreender essas datas é fundamental entender o funcionamento do calendário longo.
As datas do calendário longo são representadas por cinco blocos separados por pontos, denominados b’ak’tun, k’atun, tun, uinal e k’in. Por exemplo, a data 9.19.10.0.0 indica nove b’ak’tuns, 19 k’atuns e assim por diante; o ciclo completo da criação maia era considerado finalizado após 13 b’ak’tuns.
Sandoval destaca uma peculiaridade: não havia datas do calendário longo expressas diretamente nas inscrições hieroglíficas do altar — algo incomum para um texto real maia.
O antropólogo analisou as mãos livres dos 16 governantes retratados no altar e comparou os sinais às representações hieroglíficas. Ele observou que dois sinais manuais se assemelham a variantes conhecidas do número zero e apresentaram distribuição semelhante às representações dos zeros em datas do calendário longo.
A partir disso, ele propôs que os sinais representam zeros e que as mãos dos governantes codificam valores relacionados às datas longas em seus painéis.
A relação entre os valores do b’ak’tun e as cabeças dos governantes também foi explorada por Sandoval, que percebeu uma configuração gráfica semelhante ao número nove — frequentemente associado à morte na cultura maia.
Em sua análise final, Sandoval conectou cada data do calendário longo a eventos importantes: a face leste corresponde à data da morte do primeiro governante; a face oeste à morte do último; enquanto as faces sul e norte estão associadas a outros eventos significativos da dinastia.
Embora as descobertas tenham gerado debate entre especialistas — com alguns considerando as conclusões como manipulativas — Sandoval acredita que seu trabalho servirá como base para futuras pesquisas sobre decifração da rica e complexa escrita maia.