Vítor Soares / Arqueologia

‘Homem Dragão’ que viveu há 146 mil anos pode ser um dos nossos parentes mais próximos

Crânio de hominídeo conhecido como Homem Dragão foi descoberto em um canteiro de obras na cidade de Harbin, no nordeste da China, durante o século 20

Assim seria o Homem Dragão - Crédito: Divulgação/Chuang Zhao

No ano de 2018, um fazendeiro chinês surpreendeu um museu universitário ao doar um crânio humano gigantesco, quase perfeitamente preservado. Segundo o dador, a peça teria sido mantida com sua família desde que fora desenterrada em um canteiro de obras na cidade de Harbin, no nordeste da China, quase nove décadas antes.

Após um minucioso trabalho de investigação geoquímica, que se propôs a determinar o local provável de origem do fóssil, aliado a uma comparação detalhada de suas características anatômicas com as de outros humanos primitivos conhecidos, parte dos cientistas envolvidos passou a defender uma hipótese ousada: o crânio de Harbin poderia representar uma espécie humana até então desconhecida, batizada de Homo longi, ou “Homem-Dragão”. Mais do que isso, essa linhagem talvez seria a mais próxima da nossa espécie.

“A descoberta do crânio de Harbin e nossas análises sugerem que existe uma terceira linhagem de humanos arcaicos [que] já viveu na Ásia, e essa linhagem tem uma relação mais próxima com H. sapiens do que com os neandertais”, afirma Xijun Ni, paleoantropólogo da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade GEO de Hebei, segundo a revista Smithsonian. Caso essa interpretação esteja correta, o fóssil representaria um parente surpreendentemente próximo, sobretudo considerando que a maioria dos humanos atuais ainda carrega quantidades mensuráveis de DNA neandertal, resultado de cruzamentos ocorridos no passado remoto.

Naturalmente, a proposta de uma nova espécie humana promete debates intensos. Ainda assim, independentemente da posição definitiva do crânio de aproximadamente 146 mil anos na árvore evolutiva, a descoberta reforça a ideia de que a China foi palco de um período particularmente rico e diverso da evolução humana, entre cerca de 100 mil e 500 mil anos atrás.

Analisando o crânio

O homem que entregou o fóssil ao pesquisador Ji Qiang, do museu da Universidade GEO de Hebei, relatou que o crânio permaneceu escondido em um poço por três gerações. Ele teria sido encontrado na década de 1930, durante a construção de uma ponte ferroviária sobre o rio Songhua. Sem compreender exatamente seu valor científico, mas suspeitando de sua importância, a família decidiu protegê-lo e mantê-lo fora de circulação.

Logo após sua chegada ao museu, a peça passou por análises extensas que culminaram em três estudos independentes, todos com participação de Ni, publicados na revista de acesso aberto The Innovation. A datação direta por série de urânio indicou que o fóssil tem, no mínimo, 146 mil anos. No entanto, contextualizar um achado isolado após quase um século longe do registro científico exigiu esforços adicionais.

Os pesquisadores recorreram à fluorescência de raios X para comparar a composição química do crânio com a de fósseis de outros mamíferos do Pleistoceno Médio encontrados na região ribeirinha de Harbin. Os resultados mostraram uma semelhança surpreendente. Análises de elementos de terras raras, realizadas a partir de pequenos fragmentos ósseos da cavidade nasal, também corresponderam aos perfis químicos de restos humanos e animais encontrados em sedimentos locais datados entre 138 mil e 309 mil anos.

Além disso, uma inspeção ainda mais detalhada revelou sedimentos preservados dentro da cavidade nasal do crânio. As proporções isotópicas de estrôncio desses sedimentos coincidiram com as observadas em um núcleo geológico perfurado próximo à ponte onde o fóssil teria sido originalmente encontrado, reforçando a plausibilidade da história relatada.

Ilustração representando o Homem Dragão em seu habitat – Crédito: Divulgação/Chuang Zhao

Dimensões incomuns

Os cientistas apontaram que o crânio em questão (o maior já atribuído ao gênero Homo) comportava um cérebro comparável em tamanho ao dos humanos modernos, mas exibia traços marcadamente arcaicos, como arcadas supraciliares espessas, órbitas oculares grandes e quase quadradas, além de uma boca larga, capaz de acomodar dentes excepcionalmente grandes.

Ni explica que a equipe comparou cerca de 600 características morfológicas do crânio com aproximadamente 95 crânios e mandíbulas humanas de diferentes períodos e regiões. Utilizando métodos matemáticos avançados, os pesquisadores construíram diagramas filogenéticos para mapear as relações evolutivas entre as espécies do gênero Homo.

O resultado apontou para a existência de três grandes linhagens humanas no Pleistoceno posterior, todas descendentes de um ancestral comum: Homo sapiens, Homo neanderthalensis e um terceiro grupo que inclui o crânio de Harbin e outros fósseis chineses difíceis de classificar, como os de Dalí, Jinniushan e Hualongdong.

“Nossos resultados sugerem que o crânio de Harbin, ou Homo longi, representa uma linhagem que é o grupo irmão da linhagem H. sapiens. Então dizemos que H. longi é filogeneticamente mais próximo de H. sapiens do que os neandertais”, afirma Ni.

Postura cautelosa

Nem todos, porém, estão convencidos de que se trata de uma espécie válida. Michael Petraglia, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana e da Iniciativa de Origens Humanas do Smithsonian, reconhece o valor do achado, mas ressalta as limitações. 

“É empolgante porque é um crânio realmente interessante, e tem algumas coisas a dizer sobre a evolução humana e o que está acontecendo na Ásia. Mas também é decepcionante que ainda tenham sido descobertos 90 anos, e que seja apenas um crânio isolado, e você não tenha certeza de quantos anos exatamente ele tem ou onde se encaixa”, avalia.

Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres e coautor do estudo, também adota uma postura cautelosa. Ele destaca a importância da genética para definir ramificações evolutivas e sugere que o crânio de Harbin possa ser agrupado com o de Dalí em uma espécie distinta, possivelmente chamada Homo daliensis. Ainda assim, Stringer acredita que o fóssil será crucial para aprofundar o entendimento sobre os enigmáticos denisovanos, parentes próximos dos neandertais e dos humanos modernos conhecidos principalmente por vestígios genéticos presentes em populações atuais da Ásia e da Oceania.

Evolução cheia de complexidades

Para a paleoantropóloga Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen, o crânio de Harbin exemplifica a complexidade extrema da evolução humana no Pleistoceno Médio. Ela observa que fósseis asiáticos apresentam combinações inesperadas de traços, incluindo características antes atribuídas apenas a Homo sapiens. Nesse sentido, o crânio de Harbin ajuda a organizar o quadro, ainda que não o resolva por completo.

Segundo a Smithsonian, os pesquisadores acreditam que o Homem Dragão era um indivíduo robusto, provavelmente na casa dos 50 anos, integrante de uma pequena comunidade de caçadores-coletores que vivia em uma planície florestada sujeita a inundações, em um ambiente frio e severo. Sendo o fóssil mais setentrional do Pleistoceno Médio já conhecido, ele pode refletir adaptações corporais a climas rigorosos.

Para Petraglia, populações pequenas e isoladas podem explicar a diversidade observada nesses hominídeos asiáticos. “Eles eram cognitivamente avançados o suficiente, ou culturalmente inovadores o suficiente, para poderem viver nesses ambientes extremos, desde florestas tropicais até climas frios do norte”, diz.

Essa hipótese se encaixa em um modelo evolutivo no qual populações pequenas se desenvolvem de forma isolada, expandem-se de maneira esporádica ao longo do tempo, entram em contato e se misturam com outras, para depois voltar a se fragmentar em grupos reduzidos, que seguem se adaptando a ambientes específicos antes de, novamente, se encontrarem e cruzarem com populações distintas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.