5 descobertas que podem reescrever a história da humanidade
Os primeiros hominídeos surgiram há entre 7 e 5 milhões de anos — e, até hoje, várias descobertas sobre eles nos ajudam a entender mais sobre a evolução e história da humanidade

É indiscutível como a humanidade se diferenciou, e muito, do restante do reino animal no decorrer de sua história. Hoje, somos praticamente os únicos seres vivos complexos que habitam todo o globo terrestre, e já estamos até mesmo com um pé para fora de nosso planeta, com as cada vez mais avançadas explorações espaciais rumo à Lua ou à Marte.
Mas, para chegar até aqui, foi necessária uma caminhada verdadeiramente longa. Estima-se que nossa espécie, o Homo sapiens, surgiu na África há cerca de 200 mil a 300 mil anos atrás, antes de se espalhar para o restante do mundo. E, antes mesmo deles, já havia outras espécies de hominídeos pelo mundo, cuja história evolutiva também foi fundamental para nós.
Isso porque, por exemplo, os neandertais — uma das espécies de hominídeos mais próximas da gente, geneticamente — não desapareceram de maneira violenta, sendo dizimados pelos Homo sapiens. Hoje sabemos que a explicação para seu desaparecimento está na miscigenação: os Homo neanderthalensis chegaram a se reproduzir e a ser incorporados aos Homo sapiens, tanto que hoje temos uma herança genética neandertal que varia entre 1% e 5%.
Sabendo que até mesmo os eventos ocorridos com hominídeos ainda mais antigos que os neandertais podem ter impacto grandemente na história evolutiva da humanidade como a conhecemos hoje, confira a seguir 5 grandes descobertas que podem reescrever a história da humanidade:
1. Pé fossilizado na Etiópia

Na Etiópia, foi encontrado um pé fossilizado — que ficou conhecido como “pé de Burtele” — que, segundo um novo estudo, pertenceu ao Australopithecus deyiremeda, um antigo parente humano controverso que viveu entre 3,5 e 3,3 milhões de anos atrás. Acredita-se que ele chegou até mesmo a dividir território com o famoso Australopithecus afarensis, espécie de Lucy, que foi descoberta em 1974 e hoje é conhecida como um dos hominídeos mais antigos já descobertos.
Em 2009, pesquisadores já haviam descrito que o pé tinha dedos longos e curvados, que indicavam uma vida parcialmente arborícola. Mas recentemente, ossos da mandíbula e dentes encontrados perto do local do achado ajudaram a confirmar que se tratava de uma espécie diferente de Lucy. “Estamos aprendendo que havia muitas maneiras de andar sobre duas pernas”, afirmou o paleoantropólogo Yohannes Haile-Selassie, principal autor do estudo, publicado na revista Nature.
Até a descoberta do pé de Burtele, acreditava-se amplamente que os hominídeos desse período eram totalmente bípedes, tal como Lucy; mas o novo fóssil derrubou essa ideia.
2. Exposição ao chumbo
Um estudo publicado na revista Science Advances revelou que ancestrais humanos, incluindo outras espécies além do Homo sapiens, estiveram expostos ao chumbo por até 2 milhões de anos, o que pode ter desempenhado um papel inesperado na evolução da humanidade. Isso porque, como hoje sabemos, o chumbo é um metal com efeitos tóxicos — mas que pode ter influenciado o desenvolvimento das habilidades de linguagem e comunicação do Homo sapiens.
Renaud Joannes-Boyau, professor da Southern Cross University, na Austrália, e coautor do estudo, explica que “a evolução frequentemente avança em meio à adversidade”. Dessa forma, toxinas como o chumbo podem ter servido como um fator de pressão evolutiva: “a exposição ao chumbo pode ser uma dessas forças ocultas em nossa história evolutiva”.
No estudo, os pesquisadores apontam que, os Homo sapiens podem ter sido mais resistentes aos danos do chumbo que os neandertais e outros hominídeos, o que permitiu que o gene FOXP2, fundamental para a fala e a comunicação, continuasse ativo, mesmo em condições adversas. Isso teria dado aos Homo sapiens uma vantagem evolutiva decisiva sobre os outros hominídeos.
3. Manuseio de ferramentas

Historicamente, considerava-se que a capacidade de fabricar e manusear ferramentas era uma característica exclusiva do gênero Homo. No entanto, descobertas recentes de fósseis datados em 1,52 milhão de anos encontrados no Quênia indicam que um ancestral humano extinto, o Paranthropus boisei, já teria feito isso muito antes do que se pensava, desafiando as concepções anteriores sobre a destreza de suas mãos.
Esses ossos, que incluem mão e pé, indicam uma habilidade manual surpreendente do P. boisei, e uma pegada firme, semelhante ao movimento dos humanos ao segurar o martelo. No entanto, a estrutura ampla dos ossos dos dedos exibe semelhanças com as mãos dos gorilas, o que intrigou especialistas.
A anatomia da mão do P. boisei sugere também que ele pode ter compartilhado com os gorilas a habilidade de agarrar e processar alimentos vegetais fibrosos; mas, ao contrário destes primatas, seus pés possuíam arcos bem desenvolvidos para locomoção bípede eficiente. Acredita-se que ele pode ter coexistido com o Homo erectus, embora ocupassem nichos ecológicos diferentes.
4. Crânio na China

Um crânio descoberto na China e datado entre 940 mil e mais de um milhão de anos, conhecido como Yunxian 2, foi analisado recentemente e pode reescrever a história da separação entre os Homo sapiens e outras linhagens. Anteriormente era suposto que ele pertencesse ao Homo erectus, mas estudos mais recentes confirmaram que se tratava de uma linhagem asiática distinta, que inclui os denisovanos e o Homo longi.
Especialistas determinaram que o crânio pertencia a um homem que tinha entre 30 e 40 anos, mas com características físicas notáveis, como estrutura baixa e alongada, testa retraída, maçãs do rosto proeminentes, um nariz grande e um volume cerebral que era considerado elevado para a época. Essa mistura de traços arcaicos e modernos colocou o fóssil em um lugar único no contexto evolutivo, diferenciando-se tanto dos neandertais quanto do Homo erectus.
O estudo indica que o Yunxian 2 pode ter pertencido a um grupo que se desviou da linha evolutiva que levou aos Homo sapiens há mais de um milhão de anos, antecipando em até 400 mil anos as estimativas oferecidas por outras pesquisas genéticas. Isso levanta especulações de que a origem do Homo sapiens pode ser ainda mais antiga do que se pensava, remontando a mais de um milhão de anos, e que a Ásia tenha desempenhado um papel central na evolução humana, tendo abrigado múltiplas linhagens que coexistiram e interagiram entre si.
5. Nariz dos neandertais

Uma análise digital recente dos ossos nasais do crânio de um neandertal descoberto em 1993 no sul da Itália, que viveu entre 130 mil e 172 mil anos atrás, destacou que “o formato geral da cavidade nasal e da abertura nasal dos neandertais segue uma tendência bastante constante. Em geral, começa grande, mas aumenta de tamanho durante a evolução, com aberturas nasais muito grandes nas últimas populações da espécie”, explicou o paleoantropólogo Costantino Buzi, da Universidade de Perugia e autor principal do estudo (publicado na PNAS ), ao Live Science.
Uma das hipóteses anteriores sobre os grandes narizes dos neandertais sugere que eles possuíam seios paranasais ampliados e um sistema respiratório otimizado para as condições de ambientes frios e secos, o que poderia ter sido vantajoso para aquecer e umidificar o ar antes de chegar nos pulmões. No entanto, o novo estudo revelou que as estruturas nasais do neandertal descoberto na Itália não apresentavam características substancialmente diferentes das de humanos modernos — logo, embora seu esqueleto indicasse outras adaptações ao frio, o nariz não seguia esse padrão.
Dessa forma, em vez de considerar o nariz neandertal como uma adaptação única ao frio, seria mais apropriado entendê-lo apenas como um mecanismo eficiente para regular a temperatura e umidade do ar inalado necessário para sustentar os corpos desses hominídeos, resultando em um modelo perfeitamente funcional para o clima rigoroso do Pleistoceno Superior europeu.