Roselle Adriane Soglio / Luigi Pirandello

Luigi Pirandello: O eterno visionário

Do pós-guerra ao Nobel, obra profética de Luigi Pirandello contradisse o fascismo e decifrou nossa era de caos e máscaras digitais

Luigi Pirandello - Getty Images

Luigi Pirandello nasceu em 1867, quando a Itália recém-unificada buscava definir quem era, dilema que, ironicamente, moldaria toda a sua obra. Cresceu quando as certezas do século 19 desmoronavam, enquanto novas teorias, da psicanálise ao relativismo, corroíam a estabilidade da razão clássica.

Nesse ambiente, Pirandello compreendeu antes de muitos que o ser humano não é uma identidade pronta, mas um mosaico frágil, sempre à beira de se desfazer. Quando publicou O Falecido Mattia Pascal (1904), antecipou conflitos que definiriam o século 20 e que hoje, em pleno século 21, voltam a nos assombrar: a tensão entre quem somos e quem o mundo exige que sejamos.

O Teatro da Desagregação: Quando a Forma Racha

Com Seis Personagens à Procura de um Autor (1921), Pirandello não apenas rompeu regras dramáticas: ele abriu uma fissura no próprio conceito de realidade cênica. No pós-Primeira Guerra Mundial, a Europa estava moralmente estilhaçada e Pirandello transformou esse colapso em estética.

Ele dialogava com as vanguardas inquietas de seu tempo, mas ia além delas: desmontava o pacto de realidade do teatro para revelar que toda existência é uma construção provisória. A crítica o viu como ousadia; o século 20 o reconheceu como profecia. Em 1934, o Prêmio Nobel apenas confirmou o que já era evidente: sua obra inaugurava um novo modo de pensar a representação.

Entre o Fascismo e a Dissidência Invisível

A relação de Pirandello com o fascismo italiano foi tão complexa quanto seus personagens. Apesar de ter apoiado Mussolini no início, gesto comum entre intelectuais que buscavam estabilidade após anos de crise, sua obra contradizia radicalmente qualquer regime que quisesse congelar a identidade humana em um molde único. Sua dramaturgia é incompatível com o autoritarismo: nela, a verdade é sempre múltipla, instável, conflitiva. Pirandello viveu perto do poder, mas nunca pertenceu a ele; sua essência era a insubmissão silenciosa.

Pirandello no Século 21: O Visionário da Era Digital

O mundo atual é, de certa forma, pirandelliano até o “osso”. Vivemos entre perfis que se multiplicam, narrativas que se chocam, identidades que se desfazem sob a pressão das redes, dos algoritmos e da vigilância permanente. Pirandello, sem jamais imaginar a internet, descreveu com precisão nossa era de máscaras digitais. O que antes era metafísica tornou-se cotidiano: todos nós representamos, editamos, filtramos. Em tempos de pós-verdade, sua obra é quase um manual: ele nos ensina que a multiplicidade não é defeito, mas destino.

Um Legado que se Expande: O Pensador da Complexidade

Hoje, Pirandello ultrapassa os limites da literatura e penetra campos como psicologia, estudos de mídia e sociologia. Em um mundo polarizado, saturado de disputas identitárias, sua reflexão sobre percepção e subjetividade ajuda a compreender o caos contemporâneo. Ele nos força a admitir: não existe uma realidade única, e a compreensão do outro exige tolerar contradições que o pensamento simplificador tenta apagar.

O Autor que lê o nosso Futuro

Ao revisitarmos Pirandello, percebemos que sua relevância não é apenas histórica, é profética. Ele não escreveu apenas sobre personagens em crise, mas sobre nós: seres fragmentados, inquietos, múltiplos. Sua obra permanece como farol em um tempo confuso, lembrando que a humanidade não cabe em molduras rígidas. Somos feitos de máscaras, mas também da coragem de admiti-las. Pirandello não apenas descreveu seu mundo, ele decifrou o nosso.

Roselle Adriane Soglio. Professora de Direito, Doutora em História da Ciência. Vice- Presidente da ABCCRIM