Roselle Adriane Soglio / Rio de Janeiro

Cidade Maravilhosa, tragédia infinita

Megaoperação vira chacina histórica que supera Carandiru; tragédia expõe colapso do Estado e a falência da segurança pública no Brasil

Foto que mostra a chacina no RJ - Getty IMages

O Rio de Janeiro amanheceu, mais uma vez em 28 de outubro de 2025, sob o som ensurdecedor dos tiros. O que deveria ser uma megaoperação de inteligência e combate ao crime organizado transformou-se em uma tragédia de proporções históricas, uma chacina que, pela brutalidade e pelo número de mortos, já supera o massacre do Carandiru, ocorrido há 33 anos. Uma ação que deveria simbolizar o enfrentamento da criminalidade se tornou um símbolo de descontrole, despreparo e falência do Estado brasileiro diante de sua missão mais básica: proteger vidas.

O contraste entre a beleza natural da cidade e a violência que a consome é doloroso. Sob o olhar silencioso do Cristo Redentor, o Rio, cartão-postal do país, exibe suas contradições mais cruéis. Entre o azul do mar e o verde das montanhas, a cor predominante foi o vermelho do sangue. Nas vielas das comunidades, o que se ouviu foram os gritos de desespero, as sirenes, o medo, a indignação.

O Rio de Janeiro, que já foi cantado como “cidade maravilhosa”, se transformou no retrato mais contundente da falência da política de segurança pública no Brasil.

O Estado segue confundindo repressão com eficácia. Em vez de inteligência, age com ímpeto. Em vez de estratégia, escolhe o confronto. A operação que prometia desarticular o Comando Vermelho revelou-se um desastre tático, logístico e humano. A morte de dezenas de pessoas, entre elas, suspeitos, inocentes e policiais, não é sinal de vitória, mas de colapso. O sangue derramado não indica força, e sim fraqueza. Cada corpo caído revela que o Estado perdeu o controle, perdeu o rumo e, pior, perdeu o respeito pela vida.

Perícia e chacina

Mas para saber exatamente o que ocorreu, seria preciso algo que o Brasil ainda não aprendeu a fazer: preservar o local do crime. A perícia é um ato de justiça e ciência, não de conveniência. Preservar o cenário, respeitar a cronologia dos fatos, coletar cada vestígio com técnica e paciência, tudo isso é essencial para compreender a verdade. No entanto, essa cultura ainda é precária no país. As operações terminam e, logo depois, o espaço é alterado, corpos são removidos sob pressão, objetos são deslocados, e a narrativa oficial se impõe antes que os peritos possam sequer registrar as evidências.

Sem preservação da cena, sem perícia detalhada, sem tempo e autonomia para os especialistas trabalharem, não há verdade possível. E sem verdade, não há justiça. As perícias nos corpos devem ser feitas sem pressa, sem interferência política, sem a ânsia de encerrar o caso para proteger instituições ou reputações. Cada ferimento, cada resíduo de pólvora, cada posição dos corpos fala. O silêncio técnico que se segue quando a perícia é negligenciada é tão grave quanto o som dos disparos. É o silêncio da impunidade.

A ausência de autonomia pericial, como se verifica no Estado do Rio de Janeiro, subordina a atividade científica a interesses administrativos e políticos da instituição. Tal subordinação compromete a independência técnica dos peritos, fragiliza a produção da prova científica e, consequentemente, enfraquece a busca pela verdade material, criando condições que favorecem a impunidade.

A arma de fogo é letal, mas as ideias que orientam operações desastrosas também matam. Quando o planejamento é guiado pela lógica da guerra, e não pela racionalidade da segurança pública, o resultado é previsível: a tragédia. Policiais são lançados a territórios conflagrados sem preparo adequado, sem equipamentos de proteção, sem informação precisa. São homens e mulheres transformados em alvos, abandonados por um Estado que os usa como escudo e depois os descarta. A morte dos agentes também é uma tragédia, não apenas pessoal, mas institucional. Cada policial que cai é a prova viva de que o Estado não sabe cuidar nem daqueles que o representa.

Problema estrutural

O problema é estrutural. Décadas de abandono social e políticas de segurança baseadas na força transformaram o Rio em um campo de guerra permanente. A ausência de investimentos em educação, emprego, moradia e oportunidades alimenta o ciclo do crime, enquanto o Estado se limita a reagir com violência. O poder público, incapaz de oferecer futuro, tenta impor medo. Mas o medo não reconstrói nada, apenas destrói mais.

O resultado é um país que chora suas vítimas sem saber seus nomes, que repete tragédias sem aprender com elas. As famílias das comunidades sofrem, as famílias dos policiais também. Em ambos os lados, o luto é o mesmo, a dor é a mesma, o fracasso é o mesmo. Não há vencedores. O Estado mata e morre ao mesmo tempo. E o que sobra é a sensação de que ninguém está protegido, nem quem veste farda, nem quem vive atrás de muros improvisados.

No exterior, o impacto é devastador. A imagem do Brasil, já abalada por sua desigualdade e por sua histórica violência, volta a ser associada ao caos e ao desrespeito aos direitos humanos. Cada chacina que o Estado promove ou permite é um golpe direto na credibilidade internacional do país, na confiança de sua própria população e, sobretudo, no ideal de democracia.

O Estado Democrático de Direito não resiste quando o Estado escolhe matar antes de compreender. Quando a lei é substituída pela fúria, a Constituição deixa de ser um pacto de civilização e se transforma em um papel sem valor. O que se vê é um poder público que se afasta de seus princípios e age com a mesma brutalidade que deveria combater.

A morte nunca foi, e jamais será, solução. O sangue não estanca o crime; o alimenta. Cada vida perdida, seja de um morador de uma comunidade, de um jovem envolvido com o tráfico ou de um policial em serviço, representa o fracasso de todos nós enquanto sociedade. A morte repetida, legitimada, institucionalizada, é o atestado de óbito da esperança.

O Brasil precisa reconstruir não apenas suas políticas de segurança, mas sua própria relação com a vida e com a verdade. É preciso entender que segurança não se faz com fuzis, mas com oportunidades; que justiça não se alcança com pressa, mas com rigor; que a paz não nasce da guerra, mas da dignidade. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a repetir o mesmo enredo: o das munições que falam mais alto que as palavras, o das lágrimas que lavam o sangue que insiste em correr.

O Rio de Janeiro segue belo, mas é uma beleza ferida. Uma cidade que, sob o sol e o mar, carrega o peso de uma tragédia humana e institucional. O Cristo, de braços abertos, parece não abençoar, apenas acolher os que se foram. E nós, enquanto país, permanecemos diante de uma escolha moral e histórica: continuar enterrando nossos mortos ou, finalmente, aprender a proteger os vivos.

Roselle Adriane Soglio. Professora de Direito, Doutora em História da Ciência. Vice- Presidente da ABCCRIM