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Terra pode ganhar um “anel” artificial semelhante ao de Saturno, alertam pesquisadores

Proliferação de satélites e espelhos orbitais pode transformar o céu noturno e comprometer observações astronômicas; entenda!

Foto de stock de Grupo de satélites com antenas parabólicas em órbita ao redor da Terra, para sistemas de comunicação e monitoramento. Elementos desta imagem fornecida pela NASA. - Getty Images

Os planos para colocar em órbita mais de um milhão de satélites destinados a data centers espaciais e dezenas de milhares de espelhos orbitais podem alterar de forma permanente a aparência do céu noturno. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Space.com, caso esses projetos sejam concretizados, a Terra poderá ganhar um “anel” artificial semelhante ao de Saturno, visível por horas após o pôr do sol e antes do amanhecer.

A estrutura seria formada por satélites alinhados em uma mesma órbita, criando uma faixa luminosa que atravessaria o céu. De acordo com os especialistas, o brilho desse anel poderia superar o de qualquer estrela ou planeta observado da Terra e, em determinadas condições, até competir com o da Lua cheia.

Hugh Lewis, professor de astronáutica da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, explica que a quantidade de satélites prevista exige que eles sejam posicionados em uma órbita específica, localizada ao longo da fronteira entre as regiões iluminadas e escuras do planeta.

Segundo ele, todos os equipamentos permaneceriam praticamente no mesmo plano e seguiriam a mesma direção, criando um efeito visual permanente. Para o pesquisador, o impacto sobre o céu noturno seria “absolutamente catastrófico”.

Corrida espacial preocupa astrônomos

A preocupação ganhou força com o avanço dos projetos de data centers espaciais. Empresas como SpaceX, Blue Origin, Starcloud, Cowboy Space e Orbital já solicitaram autorização à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) para colocar grandes constelações de satélites em órbita. Somados, os projetos ultrapassam a marca de um milhão de equipamentos.

Além disso, a empresa Reflect Orbital pretende lançar 50 mil espelhos espaciais capazes de refletir luz solar para usinas de energia durante a noite. O primeiro demonstrador da companhia, chamado Eärendil-1, já recebeu autorização para operar e deverá ser lançado até o fim deste ano.

Segundo Lewis, tanto os data centers quanto esses espelhos dependem de iluminação solar constante para funcionar. Por isso, precisam permanecer em uma órbita específica que acompanha a linha entre o dia e a noite na Terra, diferentemente de outras constelações de satélites.

Simulações mostram impactos no céu

A astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina, no Canadá, participou de simulações que avaliaram o efeito visual dessas futuras constelações. Segundo ela, os resultados indicam que o número de satélites visíveis poderá superar o de estrelas observadas da superfície terrestre.

As simulações também mostram que o anel cruzaria o céu diariamente ao anoitecer e antes do amanhecer. Mesmo depois de os satélites desaparecerem abaixo do horizonte, o brilho refletido permaneceria iluminando o céu por até duas horas.

De acordo com a pesquisadora, isso reduziria significativamente a eficiência dos telescópios e dificultaria observações importantes, como a busca por asteroides próximos da Terra.

Outro estudo citado na reportagem concluiu que uma constelação com 50 mil espelhos espaciais poderia aumentar em até 300% o brilho do céu noturno, comprometendo o funcionamento de alguns dos telescópios mais sofisticados do mundo, repercute o Olhar Digital.

Para o astrônomo John Barentine, a humanidade já modificou profundamente o ambiente espacial ao redor do planeta. Caso esses projetos avancem, o resultado poderá ser um “anel de Saturno” artificial permanente, alterando não apenas a paisagem do céu, mas também a forma como a astronomia é realizada em todo o mundo.


*Sob supervisão de Éric Moreira