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“O Jardim dos Segredos”: Obra discute a infância sob a sombra da Grande Guerra

Em entrevista exclusiva, a premiada autora A. M. Howell discute os traumas da Primeira Guerra e os mistérios por trás de sua obra sensível sobre a perda da inocência

Imagem ilustrativa - Getty Images

A historiografia tradicional costuma focar nos movimentos de tropas, nas estratégias de generais e nos mapas redesenhados por tratados diplomáticos, mas existe uma dimensão humana dos conflitos que reside no silêncio das casas e no olhar das crianças que ficaram para trás.

É nessa fronteira delicada entre o mistério doméstico e o impacto de um mundo em colapso que a autora britânica A. M. Howell constrói sua narrativa em “O Jardim dos Segredos”, obra publicada no Brasil pela DarkSide Books.

Ambientado na Inglaterra de 1916, o livro convida o leitor a compreender como a rotina de uma grande propriedade rural foi alterada por segredos que florescem tanto dentro de uma estufa quanto nas frentes de combate da Primeira Guerra Mundial.

A trajetória de Howell é marcada pelo reconhecimento da crítica, sendo ela a primeira autora de literatura infantil a vencer o prestigioso prêmio East Anglian Book of the Year, em 2020.

Em conversa exclusiva com a Aventuras na História, a escritora detalha que sua escolha pela chamada Grande Guerra surgiu do desejo de investigar o trauma invisível de quem não estava diretamente nas trincheiras.

Segundo a autora, a literatura infantil muitas vezes foca nos horrores das batalhas frontais, mas seu interesse estava no front doméstico.

A Primeira Guerra Mundial na ficção infantil frequentemente se concentra nos horrores da vida nas trincheiras, mas eu sempre estive interessada no impacto mais silencioso, embora ainda traumático, da guerra naqueles que ficaram em casa”, explica.

O terror que vinha das nuvens

Embora o conflito global seja o pano de fundo constante da obra, a atmosfera de tensão é alimentada por perigos muito próximos da realidade vivida pela própria autora em Suffolk, na Inglaterra. Howell buscou inspiração em eventos históricos locais, como os ataques de dirigíveis que aterrorizaram a população civil na época.

Em sua cidade, Bury St Edmunds, uma placa azul marca um edifício destruído por uma dessas incursões aéreas em 1915. Em uma era onde o voo motorizado ainda era uma novidade incompreendida e perigosa, a chegada dessas máquinas gigantescas trazia um medo paralisante.

A autora relata que esses veículos eram cercados de uma aura sombria devido à sua natureza implacável contra alvos que não podiam se defender.

Os Zeppelins eram por vezes conhecidos como ‘assassinos de bebês’ por causa de sua abordagem silenciosa e mortal e das enormes bombas incendiárias que carregavam”, recorda Howell.

No livro, esse perigo externo reflete a insegurança da protagonista, Clara, uma criança que é enviada para uma mansão desconhecida e precisa lidar com a sensação de vulnerabilidade. Para Howell, o foco está em como crianças experimentam o perigo sem compreendê-lo totalmente e como um conflito mundial poderia remodelar a vida cotidiana, mesmo para quem estava fisicamente longe dos canhões.

A autora A. M. Howell e a capa de O Jardim dos Segredos, lançamento da DarkSide Books – Foto: Divulgação e Divulgação/DarkSide Books

Mansões imponentes

A construção do cenário de “O Jardim dos Segredos” exigiu uma imersão profunda em locais históricos reais para que a ficção tivesse o peso da verdade. A autora não se limitou apenas aos livros de história, buscando entender a vida nos bastidores das grandes casas de campo inglesas do início do século 20.

Ela explorou as dependências destinadas aos funcionários na Ickworth House, a propriedade real que serviu de base para a mansão da história, buscando compreender a rotina de quem trabalhava arduamente longe do luxo visto pelos proprietários.

Explorei os aposentos dos criados da Ickworth House, onde a história se baseia, para entender como teria sido trabalhar no andar de baixo em uma grande casa de campo”, detalha a autora.

A precisão botânica também foi uma preocupação central, levando a escritora a colaborar com especialistas para garantir que cada detalhe das estufas fosse autêntico. Howell contou com a ajuda do jardineiro-chefe de Ickworth e passou horas no Jardim Botânico da Universidade de Cambridge.

Essas visitas foram cruciais para descrever cenas em que a personagem Clara e seu amigo Will vigiam a propriedade na tentativa de desvendar mistérios locais, como o curioso roubo de abacaxis da estufa.

Trabalhei duro para manter os detalhes históricos autênticos, mas leves, para que apoiem a história sem sobrecarregá-la”, afirma sobre o seu processo de escrita.

O encontro com a realidade crua do gás

Um dos pontos mais sensíveis da obra é o momento em que a barreira de proteção criada pelos adultos ao redor da infância começa a se desfazer. Howell explica que, no livro, os pais da protagonista tentam protegê-la da realidade terrível do conflito, o que acaba gerando mais incertezas.

O encontro de Clara com um soldado ferido, que retorna do combate com marcas profundas e visíveis, serve como o despertar definitivo para a gravidade da situação mundial.

Clara foi protegida por seus pais de muito do que está acontecendo, em parte porque eles querem protegê-la e em parte porque a realidade da guerra é simplesmente terrível demais para se falar sobre”, explica a autora.

A inspiração para essas passagens veio de relatos reais de combatentes que foram invalidados e enviados de volta à Inglaterra, muitos com ferimentos graves ou problemas pulmonares decorrentes do uso de armas químicas no front.

“Esta é uma revelação para Clara e a ajuda a entender que a guerra não é distante ou abstrata, mas um evento que está mudando vidas de maneiras profundamente pessoais”, comenta Howell.

A autora destaca que, embora tenha sido difícil ler sobre o envenenamento por gás mostarda, era fundamental manter a integridade da obra sem perder a sensibilidade necessária para o público jovem.

Foi difícil ler sobre isso, mas era importante para mim tornar o livro autêntico e não fugir de verdades difíceis, ao mesmo tempo em que garantia que o texto permanecesse adequado para crianças”, reforça.

A psicologia do medo 

Ao filtrar o conflito através do ponto de vista de uma criança, Howell consegue fazer com que os mistérios imediatos da casa e do jardim tenham o mesmo peso emocional que a guerra que ocorre além das fronteiras. Ela argumenta que as crianças vivenciam o mundo de forma muito direta, em que os perigos mais próximos parecem os mais urgentes.

Eu queria que os mistérios da casa e do jardim parecessem imediatos para Clara porque é assim que as crianças frequentemente experimentam o mundo: os perigos mais próximos a elas podem parecer os mais urgentes”, explica a escritora à Aventuras na História.

O desfecho de “O Jardim dos Segredos” não oferece apenas a resolução de um enigma literário, mas uma reflexão sobre a força interior necessária para encarar a vida em tempos de crise. Para a autora, a coragem não reside apenas nos atos heroicos de batalha, mas também na disposição de buscar a verdade, por mais desconfortável que ela possa ser para os envolvidos.

A mensagem final que a obra deixa é a de que a honestidade e a busca pelo entendimento são as bases para a empatia humana. “Espero que os leitores saiam com a sensação de que a coragem pode assumir muitas formas e que descobrir a verdade pode nos ajudar a entender tanto as pessoas ao nosso redor quanto a nós mesmos”, conclui A. M. Howell.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli

Meu propósito é dar voz a narrativas.