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Algemas de 2300 anos estariam ligadas ao comércio de pessoas escravizadas na sociedade gaulesa

Bastante raras, as algemas de ferro foram encontradas durante escavações em Allonnes, no Vale do Loire, na França

Arqueólogos encontraram uma restrição de punho (esquerda) e uma de tornozelo (direita) - Crédito: Divulgação/Emmanuelle Collado, INRAP)

A descoberta de algemas em um sítio arqueológico celta datado de cerca de 2.300 anos atrás está ajudando pesquisadores a entender a história do comercio de pessoas escravizadas na sociedade gaulesa. Bastante raros, os objetos, achados originalmente em 2019, foram encontrados durante escavações em Allonnes, no Vale do Loire, na França, e sugerem que o assentamento pode ter desempenhado um papel importante no tráfico de escravos durante a Idade do Ferro. Os resultados das pesquisas foram divulgados ao público em 9 de julho pelo Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva (INRAP).

Segundo os arqueólogos, o povoado foi fundado no século 3 a.C., ao lado de um complexo religioso, e reunia oficinas de artesãos especializados, como ferreiros, caldeireiros, trabalhadores do bronze e do metal. Durante dois anos de escavações, os pesquisadores recuperaram espadas, pontas de lança, chaves e peças de arreios para cavalos, mas nada se comparou ao conjunto de cinco pares de algemas de ferro, que são objetos considerados extremamente raros para o período. Entre as peças estavam uma contenção dupla para os pulsos, uma para os tornozelos e outras três partes de grilhões metálicos. Para os especialistas, a presença desses artefatos indica uma sociedade fortemente hierarquizada e reforça a hipótese de que Allonnes tenha funcionado como um centro de comércio de escravizados na Gália pré-romana.

“A identificação de restrições e armas sugere uma organização social hierárquica composta por grupos dominantes e subordinados — prisioneiros ou escravos”, explicou o especialista em metalurgia celta Thierry Lejars, em declaração divulgada pelo INRAP e repercutida pelo portal Live Science.

Os gauleses, formados por diferentes tribos celtas, costumavam escravizar prisioneiros de guerra, pessoas condenadas e devedores, que eram obrigados a trabalhar principalmente em atividades agrícolas. Sem muitos registros escritos produzidos pelos próprios celtas, os historiadores ainda conhecem pouco sobre o funcionamento da escravidão na região antes da conquista romana. Por isso, as correntes encontradas em Allonnes oferecem uma rara oportunidade de compreender a realidade vivida por indivíduos que permaneceram praticamente invisíveis nos relatos históricos.

Uma das algemas de pulso mede apenas 6 centímetros de diâmetro, o que sugere que poderia ter sido usada em uma mulher ou em uma criança. Já a contenção para tornozelo pesa mais de 1 quilo, evidenciando o peso físico imposto às pessoas mantidas em cativeiro.

Outras descobertas

Além dos grilhões, os arqueólogos localizaram um santuário religioso com diversas oferendas, entre elas roupas, anéis e amuletos. Muitos desses objetos haviam sido deformados ou quebrados, prática que, segundo os pesquisadores, simbolizava a transformação de um bem comum em um presente destinado às divindades.

O mesmo sítio também revelou centenas de moedas cunhadas ao longo de mais de cinco séculos, sendo que um terço delas apresentava cortes, limagens ou marcas feitas com cinzel. De acordo com a especialista em numismática Isabelle Bollard-Raineau, essas alterações tinham um significado ritual, uma vez que retirava o valor comercial das moedas para consagrá-las ao uso religioso.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.