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Teoria liga Livro de Enoque a prisão de anjos sob a Antártida

Texto excluído do cânone ganhou destaque nas redes sociais após usuários associarem descrições de anjos às formações geológicas da Antártida

Antártida capa
Antártida / Crédito: Getty Images

O Livro de Enoque, um dos mais conhecidos textos apócrifos da tradição judaico-cristã, voltou ao centro das discussões nas redes sociais após internautas defenderem uma teoria segundo a qual a obra descreveria uma prisão localizada sob a camada de gelo da Antártida. A hipótese, entretanto, não encontra respaldo entre a maioria dos estudiosos da Bíblia, que consideram as passagens em questão representações simbólicas de uma realidade espiritual, e não referências geográficas.

Tradicionalmente atribuído a Enoque, bisavô de Noé, o manuscrito permaneceu preservado por séculos na Etiópia antes de ser redescoberto por estudiosos ocidentais no fim do século XVIII. Embora não faça parte do cânone adotado pela maior parte das denominações cristãs, o texto exerceu influência sobre o pensamento religioso antigo e apresenta narrativas que ampliam episódios mencionados de forma breve no Antigo Testamento.

Entre eles está a história dos chamados Vigilantes, um grupo de 200 anjos que, segundo o livro, abandonou sua missão celestial, desceu à Terra, tomou mulheres humanas como esposas e gerou os nefilins, gigantes descritos como violentos e responsáveis por espalhar corrupção e conhecimentos proibidos entre os homens.

Ilustração da história de Enoque – Getty Images

Prisão na Antártida?

Como punição, Deus ordenaria aos arcanjos que aprisionassem esses seres em um abismo de fogo conhecido como Tártaro, onde permaneceriam acorrentados até o julgamento final. É justamente essa descrição que deu origem à recente teoria envolvendo a Antártida.

Defensores da hipótese afirmam que determinados trechos do Livro de Enoque mencionam o “fim do céu e da Terra”, além de “câmaras de frio”, depósitos de neve e montanhas que cercariam o local onde os anjos estariam confinados. Para eles, essas referências corresponderiam à Antártida Oriental, região que abriga extensas camadas de gelo, centenas de lagos subglaciais e a cadeia das Montanhas Subglaciais Gamburtsev, completamente encoberta pelo gelo.

Essas montanhas foram mapeadas entre 2007 e 2009 por uma equipe internacional de pesquisadores, que utilizou radares embarcados em aeronaves e outros instrumentos geofísicos para revelar a existência da cadeia montanhosa escondida sob até três quilômetros de gelo.

Outro argumento utilizado pelos defensores da teoria envolve um estudo publicado em 2014, que concluiu que as montanhas, apesar de terem cerca de 500 milhões de anos, apresentam sinais mínimos de erosão, característica atribuída à longa preservação sob a cobertura de gelo.

Os entusiastas também recorrem a um trecho do capítulo 18 do Livro de Enoque, no qual o personagem é conduzido pelo anjo Uriel até o “fim do céu e da Terra”, onde encontra sete estrelas aprisionadas. Segundo a narrativa, essas estrelas representam seres celestiais que transgrediram as ordens divinas e permanecerão encarcerados por 10 mil anos, até o dia do julgamento.

A teoria ainda estabelece uma relação entre outra passagem do texto, que menciona “vozes” vindas do abismo, e dois sinais de rádio anômalos detectados pelo experimento ANITA (Antarctic Impulsive Transient Antenna), da NASA, em 2006 e 2014. Os pulsos pareceram surgir debaixo da camada de gelo antártica e ainda não possuem uma explicação definitiva. Entre as hipóteses levantadas por cientistas estão interações incomuns de raios cósmicos e outros fenômenos físicos ainda pouco compreendidos.

Apesar dessas coincidências apontadas por defensores da hipótese, pesquisadores ressaltam que o Livro de Enoque nunca menciona explicitamente a Antártida, tampouco faz referência a sinais de rádio ou qualquer localização identificável no planeta. Além disso, a interpretação predominante entre biblistas é de que as descrições pertencem ao campo da literatura apocalíptica, repleta de simbolismos voltados à dimensão sobrenatural, e não a um relato geográfico literal. Dessa forma, a associação entre o antigo manuscrito e o continente antártico permanece restrita ao campo das especulações.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.