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Irena Sendler: a mulher que resistiu à tortura e salvou 2.500 crianças judias

Integrante da resistência polonesa, Sendler utilizou documentos falsos, ambulâncias e esconderijos para retirar crianças do Gueto de Varsóvia

Irena Sendler capa
Irena Sendler - Domínio Público via Wikimedia Commons

Durante a ocupação nazista da Polônia, ajudar judeus era um crime punível com a morte. Diferentemente de outros territórios controlados pela Alemanha, a punição aplicada no país podia atingir não apenas quem prestasse auxílio, mas também toda a sua família. Mesmo diante desse risco, a assistente social polonesa Irena Sendler liderou uma das maiores operações humanitárias da Segunda Guerra Mundial, contribuindo para retirar cerca de 2.500 crianças judias do Gueto de Varsóvia entre 1942 e 1943.

Conhecida posteriormente como a “Oskar Schindler de saias”, Sendler já demonstrava oposição ao antissemitismo muito antes da guerra. Filha de um médico que atendia gratuitamente pacientes pobres — muitos deles judeus —, ela costumava afirmar que aprendeu com o pai um princípio que guiaria toda a sua vida: quando alguém está se afogando, não se pergunta se sabe nadar; simplesmente entra-se na água para ajudar.

Seu pai morreu de tifo quando ela ainda era criança, após contrair a doença ao tratar um paciente. Anos depois, enquanto estudava, Irena passou a contestar abertamente políticas discriminatórias adotadas em escolas polonesas, como a separação entre estudantes judeus e não judeus nas salas de aula. Em protesto, sentava-se ao lado dos colegas judeus e chegou a riscar de sua ficha escolar a marca que a identificava como não judia. Como consequência, acabou suspensa pela universidade durante três anos.

A atuação de Irena Sendler

Quando a Alemanha invadiu a Polônia, em 1939, Sendler trabalhava no Departamento de Assistência Social de Varsóvia. Com a ocupação, funcionários judeus foram demitidos e o governo nazista proibiu que os serviços sociais poloneses prestassem qualquer auxílio à população judaica. Em vez de obedecer às novas regras, ela organizou uma rede clandestina com colegas de trabalho para falsificar documentos e garantir que alimentos, roupas e medicamentos continuassem chegando às famílias perseguidas. Ao longo da guerra, estima-se que mais de 3 mil documentos falsificados tenham sido produzidos pelo grupo.

Em 1943, Irena passou a integrar a Żegota, organização secreta da resistência polonesa dedicada exclusivamente ao resgate de judeus. Utilizando o codinome “Jolanta”, assumiu a coordenação da seção responsável pelas crianças. Graças ao cargo que ocupava na assistência social, ela possuía autorização para entrar no Gueto de Varsóvia sob o pretexto de realizar inspeções sanitárias.

Os alemães permitiam a entrada de equipes médicas porque temiam surtos de tifo que pudessem atingir os soldados responsáveis pela vigilância do gueto. Aproveitando essa brecha, Sendler levava suprimentos aos moradores e, sempre que possível, retirava crianças escondidas em ambulâncias, caminhões, bondes e até malas, caixas e sacos utilizados para transportar mercadorias.

As decisões eram extremamente dolorosas. Muitos pais sabiam que entregar os filhos a desconhecidos poderia ser a última oportunidade de salvá-los, mas também significava uma separação sem garantia de reencontro. Quando perguntavam se as crianças sobreviveriam, Sendler respondia que não podia prometer isso. Nem mesmo tinha certeza de que conseguiria deixar o gueto viva naquele dia. O único compromisso que assumia era fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para protegê-las.

Foto mostra judeus em 1943, durante a destruição do Gueto de Varsóvia, na Polônia
Foto mostra judeus em 1943, durante a destruição do Gueto de Varsóvia, na Polônia – Getty Images

Depois de retiradas do gueto, as crianças eram distribuídas entre famílias polonesas, conventos, orfanatos e instituições católicas ligadas à resistência. Para evitar que fossem identificadas, recebiam novos nomes, aprendiam orações cristãs e memorizavam costumes católicos que poderiam ajudá-las caso fossem interrogadas por soldados alemães.

Apesar das novas identidades, Irena jamais perdeu de vista o objetivo de reunir essas crianças às suas famílias após o fim da guerra. Para isso, registrava cuidadosamente seus nomes verdadeiros, os nomes adotados e os locais onde estavam escondidas. As listas eram colocadas em recipientes de vidro e enterradas em um jardim, permanecendo ocultas durante toda a ocupação.

Em outubro de 1943, Sendler foi presa pela Gestapo. Submetida a interrogatórios e sessões de tortura, recusou-se a revelar qualquer informação sobre seus colaboradores ou sobre as crianças escondidas. Condenada à morte, escapou da execução graças a integrantes da resistência, que conseguiram subornar um guarda responsável por sua escolta.

Terminada a guerra, ela tentou localizar parentes das crianças salvas para cumprir a promessa de promover o reencontro das famílias. Em muitos casos, porém, descobriu que pais e parentes haviam sido assassinados no campo de extermínio de Treblinka ou permaneciam desaparecidos.

Pelas ações durante o Holocausto, Irena Sendler foi reconhecida por Israel como uma das Justas entre as Nações, homenagem concedida a não judeus que arriscaram a própria vida para salvar vítimas da perseguição nazista. Posteriormente, também recebeu a Ordem da Águia Branca, a maior condecoração civil da Polônia, além de outras distinções internacionais que consagraram seu legado como uma das maiores figuras humanitárias do século XX.


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Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.