Peixe-guitarra luta para escapar da extinção em Gana
Espécie criticamente ameaçada sofre com a pesca predatória, enquanto projeto transforma pescadores em aliados da conservação

Nas águas da costa oeste de Gana, uma criatura de aparência incomum tornou-se símbolo de um dos maiores desafios da conservação marinha.
Conhecido como peixe-guitarra, o animal reúne características que lembram tanto um tubarão quanto uma arraia e está entre as espécies de peixes mais ameaçadas do planeta. A captura para o comércio internacional de suas barbatanas, consideradas valiosas em mercados asiáticos, colocou a espécie em situação crítica e motivou uma mobilização para evitar seu desaparecimento.
Segundo reportagem da CNN Brasil, o trabalho é liderado pelo biólogo marinho Issah Seidu, que há mais de uma década pesquisa tubarões e raias em Gana. Atualmente professor universitário e fundador da organização sem fins lucrativos AquaLife Conservancy, ele busca envolver as comunidades pesqueiras na proteção dos animais que antes eram alvo da pesca.
Um “fóssil vivo” em perigo

O peixe-guitarra pertence ao grupo conhecido como raias-rinoceronte e é considerado um “fóssil vivo”, já que seus ancestrais habitavam os oceanos desde a época em que os dinossauros viviam na Terra.
Em Gana, quatro espécies ainda sobrevivem: o peixe-guitarra comum, o de manchas brancas, o de queixo preto e o de espinha dorsal. Todas estão classificadas como criticamente ameaçadas de extinção.
Segundo Issah Seidu, outras raias-rinoceronte maiores, como o peixe-serra e o peixe-cunha, já são consideradas localmente extintas no país, aumentando a preocupação com o futuro das espécies remanescentes.
Além de crescer lentamente e produzir poucos filhotes, o peixe-guitarra vive em águas rasas, tornando-se especialmente vulnerável à sobrepesca.
Comércio de barbatanas impulsiona captura

Durante muitos anos, a espécie era pescada principalmente para alimentação. Hoje, porém, seu maior valor está nas barbatanas, que são secas e comercializadas por valores elevados.
Grande parte desse material segue para centros comerciais da China, onde algumas barbatanas são utilizadas na produção da tradicional sopa de barbatana de tubarão. As pertencentes às espécies maiores e mais raras alcançam preços ainda mais altos devido às características que conferem ao prato.
Embora o comércio seja regulamentado pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), os pesquisadores defendem medidas ainda mais rigorosas para proteger as populações mais vulneráveis.
Ao mesmo tempo, a redução dos estoques pesqueiros levou muitos pescadores a buscar novas fontes de renda, aumentando a captura do peixe-guitarra. Entre os fatores apontados para esse cenário está a atuação de grandes embarcações industriais nas áreas de pesca da África Ocidental, além da prática ilegal conhecida como saiko, que abastece mercados locais com peixes capturados por arrastões.
Conservação passa pelas comunidades
Em vez de tratar os pescadores como adversários, Issah Seidu decidiu transformá-los em parceiros da conservação.
A iniciativa, chamada por ele de “modelo de biólogo pescador”, oferece treinamento para que profissionais da pesca aprendam técnicas de soltura segura dos animais capturados acidentalmente e participem da coleta de dados científicos, incluindo o mapeamento por GPS de áreas de reprodução e de berçários naturais do peixe-guitarra.
As informações obtidas deverão servir de base para a criação da primeira área marinha administrada localmente em Gana, destinada à recuperação não apenas do peixe-guitarra, mas também de outras espécies, como tubarões e tartarugas marinhas.
Além disso, o projeto incentiva alternativas econômicas para reduzir a dependência da pesca. Entre elas estão a fabricação de sabão e a criação de caracóis comestíveis, atividades que já passaram a gerar renda para parte das comunidades envolvidas.
Esperança para a espécie
De acordo com Seidu, cerca de 200 pessoas já deixaram de capturar o peixe-guitarra ou passaram a devolvê-lo ao mar quando ele aparece nas redes de pesca. Em duas comunidades, também foram proibidas práticas consideradas destrutivas, como o uso de dinamite, produtos químicos e redes de malha inadequada.
O pesquisador também tem investido na formação de estudantes e jovens conservacionistas para ampliar a proteção da espécie nos próximos anos. Recentemente, apresentou o trabalho desenvolvido em Gana durante a Sharks International, conferência dedicada ao estudo de tubarões e raias.
Para ele, a sobrevivência do peixe-guitarra depende tanto da conservação da biodiversidade quanto da participação das comunidades que vivem da pesca. Ao integrar moradores locais ao processo de pesquisa e proteção, o projeto busca garantir um futuro para uma das criaturas marinhas mais ameaçadas e menos conhecidas dos oceanos.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes