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Corrida contra o degelo: estação futurista flutua no Ártico para mapear biodiversidade

Comandada pela Fundação Tara Ocean, expedição passará oito meses à deriva no Polo Norte para documentar ecossistemas antes que desapareçam

A estação polar Tara, laboratório flutuante que será usado em uma expedição científica de oito meses pelo Oceano Ártico, sob a aurora boreal em Vassa, na Finlândia. Foto: Maéva Bardy/Fondation Tara Ocean.

Uma equipe composta por seis cientistas e seis tripulantes viajará no próximo mês para Kirkenes, uma cidade remota na Noruega, para dar início a uma das missões de pesquisa mais desafiadoras da atualidade. Eles subirão a bordo da estação polar Tara, uma embarcação de design futurista construída especificamente para ser congelada nas placas de gelo do Ártico. 

O objetivo desta odisseia de oito meses é permitir que o laboratório flutue à deriva pelo Polo Norte em direção à Groenlândia, coletando dados inéditos sobre os ecossistemas centrais do oceano Ártico antes que o colapso climático os mude para sempre.

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Corrida contra tempo

A urgência da missão é reforçada pelo fato de que o Ártico está aquecendo entre três a quatro vezes mais rápido do que qualquer outro lugar no planeta. Segundo Romain Troublé, microbiologista e diretor executivo da Fundação Tara Ocean, o mundo está em uma corrida perdida contra a extinção biológica. 

“Estamos perdendo espécies antes de termos tempo de descobri-las”, alertou Romain em depoimento ao veículo The Guardian. Conforme o especialista, embora as profundezas e a física da região sejam conhecidas, a parte biológica permanece um mistério absoluto, funcionando como “uma folha em branco para descobrir”.

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Vida no escuro

A rotina dentro da estação Tara exigirá um preparo psicológico extremo, semelhante ao de astronautas, devido aos meses de escuridão total e temperaturas que podem despencar para 50 graus negativos. A doutora Nina Schuback, oceanógrafa biológica que integra a expedição, compartilhou suas apreensões sobre o longo inverno polar. 

“Nunca experimentei a noite polar. Meu maior medo é a escuridão. Você fica cansado”, admitiu Nina em entrevista exclusiva ao The Guardian. Apesar dos receios, a pesquisadora enfatizou o valor científico da experiência, questionando: “Com que frequência você tem a chance de fazer algo assim? Sinto-me muito privilegiada”.

Tecnologia sob gelo

Para realizar o trabalho científico em isolamento total, a embarcação de 26 metros de comprimento conta com um “poço lunar”, uma abertura central que permite o lançamento de mergulhadores e drones nas profundezas geladas. Através desse sistema, a equipe pretende amostrar micróbios e algas que formam a base da cadeia alimentar oceânica

De acordo com a Fundação Tara Ocean, a estação foi idealizada pela designer Agnès Troublé e por Étienne Bourgois, sendo financiada para operar em ciclos contínuos pelos próximos 20 anos. O projeto busca preencher as lacunas deixadas por exploradores do passado, como o norueguês Fridtjof Nansen, que realizou a primeira deriva transpolar no final do século dezenove.

Futuro da conservação

O isolamento geográfico do grupo será tamanho que qualquer resgate em caso de emergência poderá levar mais de uma semana para chegar ao local. Esse risco é aceito em nome da preservação de um dos ambientes mais frágeis da Terra, agora exposto à mineração, pesca predatória e poluição devido ao derretimento acelerado do gelo marinho. 

Como pontuou Romain Troublé, o foco da expedição não é apenas a descoberta científica, mas a geração de dados que possam impulsionar mudanças reais nas políticas globais de proteção ambiental nos próximos anos. A esperança dos pesquisadores é que, ao documentar a biodiversidade atual, o mundo compreenda a magnitude do que está prestes a ser perdido.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.