Após décadas de abusos, internatos indígenas no Canadá se tornam espaços de memória
Antigo Instituto Mohawk torna-se museu para preservar a memória das vítimas e garantir que os horrores vividos por indígenas jamais sejam esquecidos

Sobreviventes do sistema de internatos indígenas do Canadá celebram a transformação de antigos centros de abuso em espaços de memória e educação. O exemplo mais recente é o Instituto Mohawk, em Ontário, que reabriu suas portas como museu para documentar décadas de violência sistemática e resistência cultural.
Para muitos que passaram por seus corredores, a preservação física desses locais é uma ferramenta vital contra o esquecimento e o negacionismo histórico.
Resgate da memória
O Instituto Mohawk funcionou entre 1828 e 1970 como parte de uma rede financiada pelo governo canadense para assimilar crianças indígenas à força. Conforme o jornal The Guardian, estima-se que 150 mil menores tenham sido retirados de suas famílias em uma política classificada pela Comissão de Verdade e Reconciliação como genocídio cultural.
No local, crianças eram brutalmente punidas por falarem suas línguas nativas e sofriam abusos físicos e sexuais constantes.
Doug George-Kanentiio, membro da nação Akwesasne Mohawk e sobrevivente da instituição, trabalha hoje no museu como educador. Em depoimento emocionante ao veículo The Guardian, ele descreveu a dor que ainda reside no prédio.
Ainda consigo ouvir o eco das crianças enquanto sobem a escada. E ainda consigo ouvir os vestígios dos predadores que usavam a mesma escada”, afirmou Doug George-Kanentiio.
Para ele, mergulhar nos horrores do passado é a única forma de iluminar o presente.
Luta contra negacionismo
A decisão de manter o prédio de pé, tomada por meio de votação em 2013, não foi unânime entre todas as comunidades, pois alguns grupos preferiam a demolição para apagar os traumas físicos. Entretanto, a diretora executiva do Centro Cultural Woodland, Heather George, defende que transformar a escola em museu é uma forma de protesto contra os objetivos originais do sistema. Segundo Heather George, o ensino sobre o que ocorreu no instituto ajuda a combater vozes que tentam minimizar os crimes ocorridos.
Impacto das descobertas
O debate sobre a preservação e a justiça ganhou força renovada após a descoberta de mais de mil possíveis túmulos não marcados em outros antigos internatos em 2021. Conforme os relatórios da Comissão de Verdade e Reconciliação, o sistema deixou cicatrizes que perduram, com crianças indígenas sendo ainda hoje as maiores vítimas de serviços de proteção infantil e encarceramento no país.
Para o professor de estudos indígenas Sean Carleton, a comemoração deve ser usada como ferramenta de educação pública. Como destacou a comissária Marie Wilson, essas eram instituições que muitas vezes não tinham parquinhos, mas sempre tinham cemitérios. A esperança dos sobreviventes é que, ao manter essas paredes de pé, o Canadá seja forçado a confrontar sua própria história para que ela jamais se repita.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli