Afinal, por que existem caracóis guerreiros nos livros medievais?
Caracóis guerreiros gigantes frequentemente aparecem nos livros medievais lutando contra guerreiros fortemente armados; entenda essas ilustrações!

Em meio às passagens bíblicas, livros de salmos, missais e até livros de horas da Idade Média, diversos animais bizarros aparecem nas margens dos textos. Desde escudos com rostos, coelhos antropomorfizados, lebres caçando seres humanos à figuras de caracóis guerreiros, essas imagens que acompanham os textos extraem risadas e curiosidade de quem se depara com esse conteúdo hoje em dia.
Contudo, os caracóis que geralmente apenas estavam rastejando, às vezes também apareciam como figuras gigantescas e capazes de derrubar soldados fortemente armados. E eles conquistaram um espaço especial nas redes sociais de hoje em dia, gerando dúvidas como:
Afinal, por que os ilustradores medievais desenhavam essas coisas?
As imagens nos livros
Primeiramente, é importante destacar que a aparição dos caracóis guerreiros nas páginas medievais se tornou um fenômeno tão grande que é impossível falar que há apenas um único motivo para sua presença nos textos dessa época.
Antes de tudo, é importante destacar que. muitas vezes. essas figuras consideradas bizarras para nós eram desenhadas, pintadas e enfeitadas nas margens das páginas dos livros, as marginálias. Naquele tempo, após a conclusão do texto pelos escribas, muitos artistas contratados iam até o livro e o enfeitavam — esses desenhos são chamados de iluminuras.
Mais do que uma simples representação do que o texto está falando, muitas vezes as iluminuras transpareciam mensagens próprias. Nesse sentido, as imagens podiam ter funções diversas em meios às páginas. Desde tornar mais fácil identificar o começo de um livro bíblico à um desenho feito por distração, as imagens na Idade Média se mostram ser muito mais difíceis de serem interpretadas do que “ilustrações das passagens”.

O valor da arte e o tempo necessário
Porém, uma coisa que não podemos evitar de destacar é que os livros na Idade Média eram muito caros. Na época, muitos dos livros eram feito em pele de animais. Ademais, cada página deveria ser copiada à mão por um copista/escriba, e todo erro é um dia de trabalho a mais. Por isso, muitos desses livros são nomeados com valores incalculáveis.
Assim, aqueles que detinham condições de bancar o surgimento desses livros eram os membros do clero e da nobreza. Por isso a proeminência de livros religiosos e que justificassem o poder real. Dentre as obras mais comuns da época estavam: os saltérios (com salmos), livros de horas (com orações), breviários (com orações diárias), livros pontificais (com os rituais conduzidos pelos bispos) e decretais (cartas papais).
Mas se hoje muitas pessoas não conseguem olhar para uma página em branco por meia hora sem ficar entediadas, imagine para os artistas que tinham que ficar dias em um mesmo desenho. Por isso, foram criadas algumas válvulas de escape no meio do caminho.
Essas iluminuras podiam ser bizarras, engraçadas, grotescas e até grosseiras. É comum o desenho de nádegas desnudas, pênis, pessoas doentes e até animais sanguinolentos. Entretanto, a expressão artística, por muitos considerada sem lógica, com o tempo conquistou o gosto da nobreza e passou a ter suas próprias tendências. Assim, no fim do século 13, os decoradores de livros da Europa, principalmente na França, começaram com um novo e iusitado hábito: desenhar caracóis guerreiros.

Os caracóis guerreiros
Muitas vezes, nas iluminuras se encontra um humano diante de um caracol guerreiro, às vezes voando, às vezes se rastejando, mas geralmente gigantes. Inclusive, por muitas vezes os caracóis apontam seus tentáculos superiores, conhecidos popularmente como antenas, para os cavaleiros como se fossem espadas.
Em suma, os caracóis aparecem na posição de opressores à humanidade, enfrentando guerreiros, pessoas desarmadas e até humanos nus. Conforme a BBC, essa lógica e essas imagens partem da subversão dos padrões e estigmas. Ou seja, ao colocar um nobre guerreiro armadurado perdendo para um caracol, gera-se uma inversão do paradigma social.
Em segundo ponto, para além da inversão da ordem, é necessário lembrar que a sociedade medieval ainda é profundamente agrária. De acordo com a doutora Maria Cristina Pereira, professora de arte medieval da Universidade de São Paulo (USP), nestes contextos agrícolas, os caracóis são frequentes e permeiam o cotidiano dos artistas. Isto é, o molusco reside em um espaço imaginativo contextual daquela sociedade.
Não obstante, algumas vezes esses caracóis se pareciam com verdadeiras quimeras, misturando características de diversos animais em sua composição. Assim, representavam uma subversão completa da lógica esperada nas iluminuras.
Em síntese, as marginálias podem ser usadas como espaço de subversão para os artistas, que colocavam o corajoso e armado guerreiro perdendo e pedindo perdão à um caracol. A professora de arte medieval Marian Bleeke, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, diz:
A luta entre o caracol e o cavaleiro é um exemplo do mundo virado de cabeça para baixo, um fenômeno mais amplo que produziu muitas imagens medievais diferentes. […] A ideia básica é a inversão das hierarquias esperadas ou existentes. A intenção é surpreender e até ser engraçado – acho que entendemos isso hoje de forma implícita.”
Embora haja teorias que falem que a batalha contra o caracol simbolizaria a luta de classes, ou até a ressurreição, atualmente as teorias mais aceitas são que os cavaleiros retratados enfrentando caracóis representavam a covardia e podem ter sido incluídos por ironia ao lado dos textos religiosos.
Os lombardos: uma possível origem
Contudo, há uma teoria da origem dessas extensivas referências aos caracóis: os lombardos. Sobretudo, esse é um povo germânico que habitava a região onde fica a Itália no século 8. Frequentemente, sofriam escárnios e retaliações por seus hábitos de cobrança de impostos, na época condenados pela Igreja Católica.
Na época, uma lenda popular contava que um camponês lombardo havia encontrado um caracol fortemente armado e que os deuses o incentivaram a lutar contra ele. Mas sua esposa implorou para que ele não fosse imprudente a este ponto.
Assim, essa lenda pode surgir como ponto de partida para as iluminuras com esses animais gosmentos. De qualquer forma, apesar da origem ser incerta, o que sabemos é que os desenhos de caracóis guerreiros servem à esse desejo de inflexão e certa comicidade medieval.
De alguma forma, mesmo após mais de 500 anos da origem das obras, até hoje os artistas medievais conseguem arrancar risadas e interesse dos leitores e entusiastas dessas obras.
*Sob supervisão de Éric Moreira