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Gansos de crista do século 17 são descobertos em latrina na Alemanha

Pesquisadores encontraram crânios raros em antigo poço sanitário, confirmando pela primeira vez a criação dessas aves ornamentais em solo alemão

Um dos crânios de ganso encontrados em um sítio arqueológico do século XVII ajudou a identificar as primeiras evidências de gansos-de-crista na Alemanha - Foto: Marcus Wandelt/Freie Universität Berlin

Em uma descoberta que une a arqueologia ao luxo da aristocracia do século 17, pesquisadores identificaram as primeiras evidências físicas de gansos-de-crista na Alemanha. Os vestígios, consistindo em quatro crânios com aberturas incomuns, foram recuperados em um antigo poço de latrina no sítio de Flecken Zechlin, em Brandemburgo, localizado a cerca de 100 quilômetros de Berlim. 

A análise revela que essas aves, famosas por possuírem um tufo de penas no topo da cabeça, eram mantidas em locais de alto status social e provavelmente serviam como símbolos de riqueza para as famílias da elite.

Enigma nos crânios

O achado ocorreu durante escavações realizadas entre 2021 e 2023 em um edifício que, ao longo dos séculos, serviu como residência de bispos e retiro de caça para nobres. Inicialmente, os pequenos orifícios encontrados na parte superior dos crânios intrigaram a equipe de especialistas que analisava o material. Conforme o estudo de caso do International Journal of Paleopathology, repercutido pelo Archaeology News, os ossos estavam em excelente estado de preservação, o que permitiu aos arqueólogos descartar causas comuns de furos ósseos como ataques de predadores, marcas de abate, parasitas ou doenças infecciosas.

Detalhe do crânio analisado durante estudo que identificou as primeiras evidências arqueológicas de gansos-de-crista na Alemanha – Foto: Groot, M., & Wandelt, M., International Journal of Paleopathology (2026)

Mutação e estética

A explicação para o fenômeno é biológica e está ligada a uma característica genética conhecida como fenótipo de crista. Essa condição resulta de uma mutação que afeta o desenvolvimento do crânio, permitindo a formação de um acúmulo de gordura sob o tufo de penas, o que impede o fechamento completo do osso. Em um dos exemplares estudados pela zooarqueóloga Maaike Groot e pelo pesquisador Marcus Wandelt, a abertura no teto craniano chegava a 15 milímetros de diâmetro. Essa peculiaridade estética trazia riscos à saúde das aves, que podiam sofrer com problemas de equilíbrio, audição ou visão.

Símbolo de status

Para os cientistas, a presença dessas aves em um ambiente ligado à elite não é mera coincidência: no artigo científico publicado sobre o tema, Maaike Groot e Marcus Wandelt ressaltam que a descoberta possui implicações para a compreensão do impacto cultural na criação animal. “A manutenção deliberada de defeitos deletérios em animais domésticos” demonstra que a estética era frequentemente priorizada sobre o bem-estar da espécie em contextos de ostentação. Pinturas holandesas daquele século já retratavam gansos com esse visual, mas o achado em Flecken Zechlin oferece a primeira prova material de que a raça habitava o norte da Alemanha há mais de trezentos anos.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.