Cachalotes do Mediterrâneo estão se dividindo em clãs, explicam pesquisadores
Milhares de gravações de cachalotes revelaram que dois grupos com dialetos diferentes estão surgindo na região do Mar Mediterrâneo; entenda!

Há 20.000 anos, um grupo de cachalotes entrou no Mar Mediterrâneo através do Estreito de Gibraltar. Porém, ao que tudo indica, elas gostaram do clima e começaram a viver na região. Nem mesmo os machos, que têm hábitos migratórios, saem do espaço. Assim, o ciclo praticamente fechado de comunidade se construiu.
Mas após mais de 20 anos de investigação e milhares de gravações, cientistas publicaram na Proceedings Of Royal Society que essa comunidade, até então vista como única, está se dividindo em dois grupos com dialetos próprios. Um dos pesquisadores envolvidos disse:
Sempre pensei neles como os esquisitos do mundo do cachalote na medida em que eles não saem pelo Estreito de Gibraltar, mesmo que pudessem. Eles são únicos”.
Assim, o estudo publicado na terça-feira, 23 de junho, fornece um raro episódio de emergência de dialetos em comunidades não humanas.
As cachalotes do Mediterrâneo
As cachalotes (Fiséter macrocefalia) vivem em pequenas unidades sociais do sexo feminino com os filhotes, e facilmente se associam com grupos de outras regiões. Nesse sentido, para se comunicarem, utilizam as “codas identificatórias” para se identificarem e fazer parte de um mesmo grupo cultural.
Entretanto, a pesquisadora Taylor Hersh, da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Bristol, no Reino Unido, e primeira autora da pesquisa, analisou nos últimos 20 anos parte dessas codas de identificação.
Até então, identificava que todos os milhares de cachalotes do Mediterrâneo eram do mesmo clã, visto que todas utilizavam de uma coda baseada em três cliques e, em seguida, uma pausa antes do quarto e último clique atrial, padrão nomeado três-mais-um.
Porém, a equipe de análise notou que em torno da Fossa Helênica, na Grécia, havia um dialeto ligeiramente diferente do usado pelos animais na bacia ocidental ao redor das Ilhas Baleares, na Espanha.
Basicamente, as baleias orientais produzem uma forma distinta da coda três-mais-um. “É um padrão muito semelhante de cliques, mas é muito, muito mais rápido”, disse Hersh. Inclusive, algumas baleias orientais, quando iam ao ocidente, reproduziam a coda mais lenta, sinal de familiaridade com os dois dialetos. A pesquisadora adicionou:
A questão do porquê ainda é aberta. O dialeto deles parece ser muito mais diverso do que esperávamos. Eles ocasionalmente fazem esses lentos codas três-mais-um, mas eles fazem um monte de outros tipos de coda, também.”
Baleias e humanos
Apesar de ainda não entendermos a origem dessa diferenciação, os biólogos querem estar mais próximo das baleias para tentar compreender as diferenças e as alternâncias dos dialetos. Alguns especialistas em linguísticas destacam que o primeiro passo para a diferenciação entre grupos é a alternância do dialeto.
Por exemplo, na nossa sociedade é comum ver os jovens incorporando termos que, para os mais velhos, não fazem sentido algum. Atualmente temos termos como “farmar aura” que servem como forma de distinção entre gerações.
Ao mesmo tempo, a condensação de frases é muito comum entre os mais jovens humanos. Serve para exemplificar o “Vossa mercê” que se tornou “Você” nos dias de hoje. Assim, as baleias podem estar passando por um processo semelhante ao humano.
Fato é que a descoberta, além de curiosa, ainda deixa muitas interrogações no ar. O que sabemos é que, diante de um tempo de vida de 60 a 70 anos, as cachalotes do Mediterrâneo podem estar passando por esse processo de diferenciação há milhares de anos. Conforme a Live Science, um dos pesquisadores envolvidos destacou: “Talvez se pudéssemos deixá-los por mais 10.000 anos, voltaríamos para encontrar os dialetos completamente separados dos clãs“.
*Sob supervisão de Éric Moreira