Estudo revela semelhanças entre fala humana e de baleias cachalote
Estudo mostra que vocalizações de baleias-cachalote têm estrutura complexa, com padrões semelhantes aos da fala humana; entenda!

Um novo estudo apontou que a comunicação das baleias-cachalote apresenta semelhanças surpreendentes com a linguagem humana. A pesquisa indica que as vocalizações desses animais, conhecidas como codas, possuem uma estrutura complexa comparável à fonética e à fonologia presentes em idiomas falados por humanos.
O trabalho, publicado na revista Proceedings B, analisou os padrões de cliques emitidos pelas baleias-cachalote e concluiu que elas não apenas produzem sequências sonoras organizadas, como também conseguem variar elementos dessas emissões de maneira semelhante à formação de vogais na fala humana.
As baleias-cachalote se comunicam por meio de séries de cliques curtos. Segundo os pesquisadores, esses sons podem variar em duração, intensidade e entonação, criando padrões distintos que lembram mecanismos observados em línguas humanas como mandarim, latim e esloveno. O estudo afirma que a estrutura vocal desses cetáceos apresenta “paralelos estreitos na fonética e fonologia das línguas humanas, sugerindo uma evolução independente”.
De acordo com os autores, as vocalizações de coda são “altamente complexas e representam um dos paralelos mais próximos à fonologia humana de qualquer sistema de comunicação animal analisado”. A conclusão reforça a ideia de que sistemas sofisticados de comunicação podem surgir de forma independente em espécies muito distantes na árvore evolutiva.
As descobertas fazem parte dos avanços recentes do Projeto CETI, iniciativa voltada ao estudo das baleias-cachalote na costa da Dominica. O grupo busca entender os padrões de comunicação desses animais e decifrar parte do que estariam “dizendo” umas às outras.
Para o fundador e presidente do Projeto CETI, David Gruber, o estudo ajuda a ampliar a compreensão sobre a complexidade da vida animal. “Acho que é mais um momento de humildade perceber que não somos a única espécie com vidas ricas, comunicativas, comunitárias e culturais”, disse.
Gruber também destacou a longa trajetória evolutiva desses animais: “Essas baleias podem estar transmitindo informações de geração em geração há mais de 20 milhões de anos. Os humanos agora só têm as ferramentas certas e o desejo de poder analisar as vozes das baleias dessa maneira para perceber a complexidade que sempre esteve presente.”
Desafios no estudo
Estudar baleias-cachalote, porém, é uma tarefa difícil. Esses animais passam até 50 minutos mergulhados em águas profundas em busca de alimento, como lulas, e sobem à superfície por apenas cerca de 10 minutos. É justamente nesses intervalos que costumam interagir de forma mais intensa.
Segundo Gruber, os momentos de comunicação ocorrem em proximidade física entre os animais. “Se você observar as baleias-cachalote, verá que elas juntam as cabeças e se encaixam umas nas outras”, disse. “É como se você quisesse conversar com alguém sobre um romance de Chaucer ou algo do tipo – você não faria isso de lados opostos de um estádio de futebol. Você precisaria estar bem perto para ter uma conversa realmente sofisticada.”
O estudo foi liderado pelo linguista Gašper Beguš, que afirmou que o grau de complexidade observado supera o de outros sistemas de comunicação animal já analisados por ele, como os de papagaios e elefantes, repercute o The Guardian.
“Eles têm vidas muito diferentes das nossas – não ficam presos ao chão o tempo todo, flutuam na água, dormem na vertical”, disse Beguš. “Mas você percebe que há muita coisa que nos une. Elas têm avós, cuidam dos bezerros umas das outras, fazem partos colaborativos, são muito barulhentas durante o parto e por aí vai. É uma inteligência tão distante, mas, de muitas maneiras, muito fácil de se identificar.”
Para Mauricio Cantor, que não participou da pesquisa, os resultados mostram que a comunicação das baleias vai além de sequências simples de sons. “Com este estudo, estamos começando a perceber que esses sinais são organizados de maneiras que não compreendíamos completamente antes.”
A expectativa do Projeto CETI é avançar na identificação de ao menos 20 expressões vocais ligadas a comportamentos específicos, como mergulhar ou dormir, nos próximos cinco anos. Embora a possibilidade de uma compreensão plena da comunicação das baleias ainda seja um objetivo distante, Gruber avalia que esse cenário não está fora de alcance.
“Está totalmente ao nosso alcance”, disse ele. “Já avançamos muito mais do que eu imaginava. Mas vai levar tempo e financiamento. No momento, somos como uma criança de dois anos, que só consegue dizer algumas palavras. Daqui a alguns anos, talvez sejamos como uma criança de cinco anos.”