Cisterna romana na Espanha armazenava 2 milhões de litros de água
Novo estudo criou um modelo 3D detalhado da Grande Cisterna de Sierra Aznar, do século 1, e revela capacidade da estrutura e sistema de gestão de água romano

Uma cisterna romana construída no sul da Espanha há cerca de 2.000 anos tinha capacidade para armazenar mais de 2 milhões de litros de água, segundo um novo estudo que produziu o modelo 3D mais detalhado já feito da chamada Grande Cisterna de Sierra Aznar. A pesquisa também ajudou arqueólogos a entender com mais precisão o funcionamento do sistema hidráulico ao qual a estrutura pertencia e as transformações sofridas pelo local ao longo dos séculos.
A Grande Cisterna está localizada nas proximidades de Arcos de la Frontera, na província de Cádiz, e foi erguida no século 1 d.C. Integrada a uma rede maior de captação, armazenamento e transporte de água, a estrutura fazia parte de um sistema romano de gestão hídrica instalado em uma paisagem montanhosa do sul da Península Ibérica.
Para documentar o monumento, os pesquisadores combinaram duas técnicas de registro digital: a fotogrametria, que usa centenas de fotografias para construir um modelo tridimensional, e o escaneamento a laser terrestre, capaz de registrar milhões de medições das superfícies.
A equipe reuniu 513 fotografias e realizou 11 escaneamentos em diferentes pontos da cisterna. Também distribuiu alvos topográficos pela estrutura e os mediu com instrumentos de alta precisão, a fim de verificar a fidelidade do modelo final.
Detalhes do estudo
De acordo com os resultados, a reconstrução digital reproduziu com precisão a cisterna real. O estudo, publicado na Heritage, aponta que, nas condições de campo do projeto, a fotogrametria apresentou precisão ligeiramente superior à do escaneamento a laser, embora ambas as técnicas tenham se mostrado adequadas para a pesquisa arqueológica.
A partir do modelo 3D, os pesquisadores calcularam a capacidade máxima de armazenamento da estrutura em cerca de 2.180 metros cúbicos, o equivalente a 2,18 milhões de litros de água. A cisterna ocupa aproximadamente 437 metros quadrados e atinge cerca de cinco metros de profundidade.

O formato da construção também chamou atenção dos autores. Em vez de seguir um traçado totalmente regular, a cisterna apresenta cantos arredondados e paredes irregulares, indícios de que os construtores romanos adaptaram o projeto ao relevo natural do terreno, em vez de impor um desenho padronizado à paisagem.
Além da arquitetura, o estudo analisou os sedimentos acumulados no interior da cisterna ao longo de quase dois milênios. Com base no modelo digital e em dados de uma escavação anterior, a equipe estimou que a estrutura contém cerca de 820 metros cúbicos de sedimentos, volume que corresponde a aproximadamente 37,5% de sua capacidade original. Em algumas áreas, esses depósitos ultrapassam dois metros de profundidade, registrando tanto processos naturais quanto mudanças no uso do espaço após o período romano.
A pesquisa não se limitou à cisterna principal. Os cientistas também criaram modelos 3D de bacias de sedimentação próximas e de uma fonte associada à mesma paisagem hidráulica. A comparação entre essas estruturas revelou uma organização espacial significativa: a Grande Cisterna ocupa o ponto mais alto do sistema, as bacias estão em uma posição intermediária na encosta e a fonte aparece no nível mais baixo.
Essa disposição sugere que a água circulava por gravidade. A cisterna teria funcionado como reservatório principal, de onde a água seguiria para as bacias de sedimentação, onde impurezas e partículas sólidas poderiam se depositar, antes de chegar à fonte.
Embora não existam hoje canais visíveis ligando essas estruturas, as diferenças de altitude, o posicionamento no terreno e os volumes de armazenamento reforçam a hipótese de um sistema planejado de forma coordenada, repercute o Archaeology News.
As capacidades de cada componente ajudam a sustentar essa interpretação. Enquanto a Grande Cisterna podia armazenar cerca de 2.180 metros cúbicos de água, as bacias de sedimentação somavam aproximadamente 95 metros cúbicos e a fonte tinha capacidade estimada em cerca de 443 metros cúbicos.
Para os pesquisadores, essa disparidade indica funções distintas dentro da rede: a cisterna concentraria o armazenamento, as bacias fariam o tratamento inicial e a fonte distribuiria a água em cotas inferiores.
Os autores destacam que o uso de modelos 3D permite medir estruturas, calcular volumes e avaliar a relação entre diferentes monumentos sem necessidade de intervenções físicas nos vestígios arqueológicos.
No caso de Sierra Aznar, o levantamento reforça a imagem de um sistema romano sofisticado de controle da água, adaptado ao terreno e capaz de movimentar grandes volumes de recursos hídricos. Segundo o estudo, a Grande Cisterna figura entre as maiores estruturas hidráulicas romanas conhecidas na região.