Caçadores-coletores sobreviveram no Cáucaso por 30 mil anos graças a redes sociais
Segundo estudo grupos teriam sido capazes de sobreviver às mudanças ambientais graças às grandes redes sociais que os conectavam

Um novo estudo publicado na revista Quaternary Science Reviews indica que antigos caçadores-coletores que viviam no sul do Cáucaso foram capazes de sobreviver às mudanças ambientais graças às grandes redes sociais que os conectavam mesmo à distância. O trabalho em questão reuniu evidências arqueológicas, geológicas e ambientais provenientes das áreas que hoje correspondem à Armênia, Geórgia e regiões vizinhas, considerando, especificamente, o período entre 57 mil e 27 mil anos atrás. A ideia era investigar como as populações humanas permaneceram conectadas em uma região extensa e diversificada.
Para tal, a equipe reconstruiu padrões de mobilidade, tamanho populacional e interação social a partir dos vestígios encontrados em sítios arqueológicos. Os resultados mostraram que, ainda que os grupos humanos da época fossem em sua maioria pequenos e se espalhassem por grandes áreas, eles mantinham contato regular entre si, criando redes que atravessavam longas distâncias.
Uma das principais evidências dessa conectividade veio da análise de ferramentas de pedra e artefatos produzidos com obsidiana. Conforme informações do portal Archaeology Magazine, os pesquisadores envolvidos descobriram indícios de deslocamentos frequentes que variavam entre 40 e 200 quilômetros. Essas viagens, dizem, permitiam a ligação entre comunidades instaladas em diferentes partes do sul do Cáucaso e das Terras Altas Armênias.
Além disso, os arqueólogos também identificaram técnicas semelhantes de fabricação de ferramentas em diversos sítios espalhados pela região, o que sugere a existência de intercâmbio cultural entre diferentes grupos. Como habilidades e ideias eram compartilhadas continuamente, práticas consideradas eficazes puderam ser preservadas e transmitidas ao longo de gerações.
Nova interpretação
Mas as descobertas desafiam interpretações tradicionais sobre a transição do Paleolítico Médio para o Paleolítico Superior. Isto porque, durante muito tempo, essa fase foi descrita como uma mudança rápida, na qual uma cultura teria substituído outra. No entanto, as novas evidências apontam que diferentes tradições culturais coexistiram durante milhares de anos. Em vez de substituições abruptas, o que parece ter ocorrido foi uma longa fase de interação, na qual comunidades distintas trocaram conhecimentos e influenciaram umas às outras.
Os pesquisadores argumentam ainda que a mobilidade, por si só, não explica a capacidade desses grupos de enfrentar condições ambientais adversas. As relações sociais desempenharam um papel igualmente importante. Afinal, por meio dessas redes, comunidades espalhadas por vastos territórios podiam acessar informações e estratégias desenvolvidas por outros grupos. Essa dinâmica era especialmente valiosa porque a população regional era relativamente pequena. Quando uma comunidade enfrentava dificuldades locais, como alterações climáticas ou escassez de recursos, o contato com outros grupos podia fornecer soluções e conhecimentos já testados em ambientes diferentes. Dessa forma, práticas bem-sucedidas se espalhavam por toda a região, aumentando as chances de sobrevivência coletiva.
Os autores destacam que a adaptação humana na pré-história resultou da combinação de diversos fatores interligados. Clima, mobilidade, densidade populacional e conexões sociais atuaram em conjunto para moldar a forma como essas populações prosperaram.