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Pequeno lambari pode ajudar a reduzir impacto do metano

Estudo revela que peixe nativo incorpora carbono derivado do metano à biomassa, conectando biodiversidade e clima; entenda!

Lambari (Psalidodon fasciatus) — Foto: felipe_balbino_santos/iNaturalist

Um pequeno peixe encontrado em reservatórios do Sul do Brasil pode ter um papel surpreendente em um dos maiores desafios ambientais da atualidade. Pesquisadores descobriram que o lambari-miúdo (Psalidodon minor) incorpora à própria biomassa parte do carbono derivado do metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes conhecidos.

A descoberta foi feita durante um estudo realizado no reservatório do Passaúna, localizado na Região Metropolitana de Curitiba, no Paraná. Os resultados foram publicados na revista científica Water Biology and Security e indicam que espécies de peixes podem participar de processos importantes relacionados ao ciclo global do carbono.

Ao analisar diferentes espécies presentes no reservatório, os cientistas identificaram carbono derivado do metano em todos os peixes estudados. O lambari-miúdo, porém, apresentou os índices mais elevados entre os animais avaliados.

Como o metano entra na cadeia alimentar

O metano é produzido durante a decomposição de matéria orgânica em ambientes com pouco oxigênio, como os sedimentos encontrados no fundo de reservatórios.

Segundo os pesquisadores, essas estruturas artificiais desempenham um papel importante no ciclo global do carbono e podem contribuir significativamente para as emissões desse gás para a atmosfera.

Entretanto, nem todo o metano produzido é liberado diretamente no ambiente.

Parte dele é consumida por bactérias especializadas chamadas metanotróficas. Essas bactérias passam a integrar a cadeia alimentar ao serem consumidas por pequenos organismos aquáticos, que posteriormente servem de alimento para os peixes.

Foi justamente esse caminho que permitiu aos cientistas identificar a presença de carbono derivado do metano na biomassa dos animais estudados.

Lambari apresentou os maiores índices

Os pesquisadores analisaram 11 espécies de peixes presentes no reservatório e encontraram carbono derivado do metano em todas elas.

De acordo com o estudo, a proporção variou entre aproximadamente 5% e 16% da biomassa dos animais.

O destaque ficou com o lambari-miúdo.

Em média, 15,68% da biomassa dessa espécie era composta por carbono derivado do metano. Em alguns indivíduos analisados, o percentual ultrapassou a marca de 20%.

Para os autores da pesquisa, os resultados reforçam a importância das espécies de peixes neotropicais na assimilação desse carbono dentro dos ecossistemas aquáticos.

Relação com espécies invasoras preocupa pesquisadores

Além das espécies nativas, o estudo também avaliou peixes exóticos presentes no reservatório.

Entre eles está o black bass (Micropterus salmoides), espécie originária da América do Norte e considerada uma das invasoras mais bem-sucedidas do mundo.

Os pesquisadores observaram que esse predador consome frequentemente o lambari-miúdo, justamente a espécie que apresentou maior incorporação de carbono derivado do metano.

Segundo os autores, essa relação merece atenção porque alterações nas populações do lambari podem influenciar a maneira como o carbono circula ao longo da cadeia alimentar.

O estudo destaca que espécies não nativas podem representar uma ameaça a esse processo ecológico.

Biodiversidade e clima estão conectados

Embora seja invisível para quem observa apenas a superfície da água, o fenômeno ajuda a demonstrar como biodiversidade e clima estão profundamente ligados.

Ao incorporar parte do carbono derivado do metano à biomassa dos organismos aquáticos, a cadeia alimentar passa a armazenar temporariamente esse carbono dentro do ecossistema.

Os pesquisadores destacam que compreender essas interações é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de conservação capazes de preservar processos naturais importantes para o funcionamento dos reservatórios e para o ciclo global do carbono.

Quem é o lambari-miúdo?

O lambari-miúdo, cientificamente chamado de Psalidodon minor, é uma espécie nativa da região Sul do Brasil.

Ele ocorre principalmente na bacia do rio Iguaçu, onde está localizado o reservatório do Passaúna. O peixe vive em ambientes de água doce, incluindo rios, riachos e reservatórios, repercute o g1.

Classificado pelos pesquisadores como um mesopredador, o lambari apresenta forte associação com organismos que ocupam a base da cadeia alimentar aquática. Essa característica ajuda a explicar sua elevada capacidade de incorporar carbono derivado do metano.

Agora, além de ser um peixe bastante comum nos ambientes aquáticos brasileiros, o lambari-miúdo também passa a chamar atenção por um papel inesperado: sua participação em processos naturais ligados à dinâmica de um dos principais gases associados às mudanças climáticas.


*Sob supervisão de Éric Moreira