Pesquisa prova que desigualdade social acelera envelhecimento biológico
Análise reuniu dados de mais de 65 mil pessoas em 23 países; exclusão, pobreza e desigualdade deixam marcas no envelhecimento do organismo

O que Tom Cruise, Brad Pitt, Alessandra Negrini e Madonna têm em comum? Todos parecem ser imunes ao envelhecimento. Mas e se as condições em que crescemos, como renda, escolaridade, acesso a oportunidades também pudessem deixar marcas profundas no nosso organismo?
Baseado nessas informações, pesquisadores da Alemanha e dos Estados Unidos se uniram para escrever um artigo sobre o tema. Publicado no dia 12 de junho na revista Nature Human Behaviour, os pesquisadores do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano mostraram como a desigualdade social faz o corpo envelhecer mais rápido.
Fatores como pobreza, baixa escolaridade, condições precárias de vida e exposição à discriminação racial ou étnica estão cotados entre os principais para a transformação nos genes.
O envelhecimento biológico
Para comprovar sua tese, cientistas utilizaram mais de 140 estudos de 23 diferentes países, que contabilizaram 65.919 participantes. Assim, poderiam analisar como os fatores socioeconômicos aceleram o relógio biológico do organismo.
Nesse sentido, a ferramenta utilizada foi o “relógio epigenético”, métodos de análise química de transformações no DNA ao longo da vida. Ou seja, o foco dos estudos está no rastreio das transformações epigenéticas, mudanças na forma como os genes trabalham. Dessa maneira, é possível estimar a idade biológica de um indivíduo e em qual velocidade seu organismo envelhece.
Conforme o estudo, logo na infância a desigualdade pode causar o envelhecimento genético. Crianças em condições socialmente desfavorecidas já começam com seus relógios acelerados, uma situação irreversível que acaba marcando uma vida inteira. Conforme a Revista Galileu, crianças que nascem em quadros de pobreza, décadas depois continuam com seus relógios biológicos acelerados e adiantados.
Isso acontece por uma série de motivos; mas vale destacar que, geralmente, a falta de renda, educação, moradia e serviços públicos gerará, de uma família economicamente desfavorecida, um novo adulto que passará dificuldades. Ou seja, nos deparamos com um ciclo da pobreza, em que as classes baixas continuarão em situações de insegurança social.
Raça e desigualdade
Não obstante, nos estudos realizados nos EUA, participantes negros apresentaram um envelhecimento mais acelerado do que participantes brancos. Da mesma forma, latinos, embora em menor intensidade, também estão mais vulneráveis ao envelhecimento biológico epigenético.
De acordo com os autores, a existência da raça não explica todas as diferenças. Desigualdades estruturais e sociais que ainda remontam os períodos da escravidão interferem diretamente o acesso desigual a recursos e oportunidades, causando tais diferenças.
De todo modo, a pesquisa pode oferecer uma ferramenta poderosa na análise de ferramentas para mitigar os efeitos da desigualdade social. Na prática, projetos voltados a reduzir a pobreza, falta de acesso à educação e à saúde poderiam ser mensurados e analisados nas suas nuances e efetividade.
Dessa mesma forma, fatores como estresse permanente, maior exposição à riscos ambientais, alimentação inadequada e falta de acesso à cuidados médicos, que já estão se mostrando por outras áreas como fatores que afetam diretamente a saúde das pessoas, podem ter uma resposta afirmativa. Por enquanto, o estudo foca numa análise de padrões em diferentes populações, mas casos especiais existem e devem ser considerados.
*Sob supervisão de Éric Moreira