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Tabuleiro de jogo medieval é descoberto em ruínas de banho público no Marrocos

Tabuleiro descoberto em antigo hammam de Walīla sugere prática de jogo de estratégia durante os primeiros séculos do Islã, no Marrocos

Tabuleiro de jogo descoberto em Marrocos com marcações indicando posição dos buracos / Crédito: INSAP-UCL Volubilis Archaeological Project / Penn, T., Fenwick, C., & Limane, H., Libyan Studies (2026)

Arqueólogos que realizam escavações em Walīla, cidade medieval construída sobre as ruínas da antiga cidade romana de Volubilis, no Marrocos, identificaram um tabuleiro de jogo esculpido em pedra dentro de um banho público do início do período islâmico. A descoberta oferece uma rara evidência arqueológica das atividades de lazer praticadas na região entre o final do século 8 e o século 10.

O tabuleiro foi encontrado no degrau superior de uma piscina de água fria localizada em um hammam construído durante o período idríssida. Segundo os pesquisadores, o desenho corresponde a um jogo de estratégia conhecido atualmente como tāb ou sīg, ainda praticado em partes do Norte da África e do Oriente Médio. Caso a interpretação esteja correta, trata-se da evidência mais antiga conhecida desse jogo em território norte-africano.

Embora os jogos de tabuleiro sejam frequentemente mencionados na literatura árabe medieval, vestígios arqueológicos relacionados a essas práticas permanecem relativamente pouco estudados. Um dos principais obstáculos é a dificuldade de datar tabuleiros gravados em edifícios e pavimentos que permaneceram em uso por longos períodos.

Em Walīla, porém, o contexto arqueológico permitiu uma cronologia mais precisa. O balneário onde o tabuleiro foi encontrado foi construído entre o final do século 8 e o início do século 9, sendo abandonado entre os séculos 10 e 11. A datação foi estabelecida com base em moedas, fragmentos de cerâmica e análises por radiocarbono realizadas no sítio.

Ruínas de Volubilis / Crédito: Getty Images

Tabuleiro medieval

O tabuleiro mede aproximadamente 34 centímetros de comprimento por 9,5 centímetros de largura. Ele é composto por três fileiras de pelo menos treze cavidades rasas entalhadas diretamente na pedra com ferramentas como martelo e cinzel. A execução irregular da peça sugere que ela foi produzida por alguém sem formação especializada em cantaria.

A localização da gravura também chamou a atenção dos pesquisadores. Posicionado na entrada da piscina, o tabuleiro podia ser facilmente visto por quem entrava ou saía da água. A disposição do espaço permitiria que dois jogadores se sentassem em lados opostos do degrau durante as partidas. Por estar em uma área central do edifício, a equipe considera que o jogo fazia parte das atividades habituais do local.

Os arqueólogos avaliaram a possibilidade de o tabuleiro estar relacionado à mancala, família de jogos amplamente difundida na África e na Ásia. No entanto, algumas características não se encaixam nesse tipo de jogo. As cavidades encontradas são pequenas e rasas, diferentemente dos tabuleiros de mancala, que costumam apresentar buracos mais profundos para acomodar múltiplas peças, descreve artigo publicado na revista Libyan Studies.

Por outro lado, o padrão gravado apresenta semelhanças com tabuleiros associados ao tāb e ao sīg, jogos nos quais dois adversários movimentam peças com o objetivo de capturar ou eliminar as do oponente. Como as referências escritas a essas práticas são relativamente tardias, descobertas arqueológicas como a de Walīla tornam-se fundamentais para reconstruir sua história.

Durante o início do período islâmico, Walīla ocupava uma posição estratégica. Antes mesmo da chegada dos idrísidas, a cidade mantinha relações comerciais com diversas regiões do Mediterrâneo e possuía produção própria de moedas de cobre. Sob domínio idríssida, o assentamento passou por uma expansão significativa, com a construção de novos complexos residenciais e de instalações públicas além das antigas muralhas romanas.

Os pesquisadores destacam ainda que o próprio balneário apresenta influências arquitetônicas do Mediterrâneo oriental. Escavações no sítio revelaram a presença de mercadorias importadas do Egito e do Levante, além de elementos construtivos associados a essas regiões. Tabuleiros semelhantes datados dos primeiros séculos do Islã já foram identificados na Arábia, Jordânia, Síria e em outras áreas do Oriente Próximo, sugerindo que a difusão do jogo pode ter acompanhado rotas comerciais e intercâmbios culturais.

A descoberta também reforça o papel dos hammams como espaços de convivência social. Além das funções ligadas à higiene e à purificação ritual, esses estabelecimentos serviam como locais de encontro, conversa e entretenimento. Evidências encontradas em outro complexo termal islâmico antigo, em Hammat Gader, nas Colinas de Golã, já haviam apontado para a presença de tabuleiros de jogos esculpidos em áreas de uso coletivo, repercute o Archaeology News.

Reconstrução de como seria o hammam / Crédito: Fernanda Palmieri, INSAP-UCL Volubilis Archaeological Project / Penn, T., Fenwick, C., & Limane, H., Libyan Studies (2026)

Para os pesquisadores, o achado de Walīla demonstra como elementos aparentemente simples podem revelar aspectos importantes da vida cotidiana. Gravado em um degrau de pedra há mais de 1.200 anos, o tabuleiro preservou vestígios de uma atividade recreativa que dificilmente seria conhecida apenas por meio das fontes escritas.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.