Com IA, arqueólogos desvendam jogo de tabuleiro romano
Estudo com inteligência artificial recria regras de jogo de tabuleiro e prova que romanos jogavam estilo antes atribuído apenas à Idade Média

Evidências de como pessoas se divertiam com jogos de tabuleiro durante o período romano podem ter sido reveladas. Um objeto de calcário recuperado de um assentamento romano de Coriovallum, atual Heerlen, na Holanda, forneceu aos arqueólogos pistas raras.
O artefato, hoje preservado no Museu Romano, apresenta linhas incisas em uma superfície plana. Há muitos anos os arqueólogos suspeitavam de uma possível ligação com jogos, mas nenhum exemplar romano ou europeu conhecido correspondia aos padrões dos desenhos.
De acordo com informações da revista Archaeology News, uma análise detalhada do desgaste pelo uso trouxe novas luzes sobre o objeto. O estudo concentrou-se nos danos ao longo das linhas gravadas, onde a abrasão microscópica se mostrou irregular, com alguns trechos mais gastos que outros.
Isso sugere que movimentos repetitivos eram feitos com pequenos fragmentos ao longo de rotas específicas, ao invés de apenas um contato aleatório. Somada às análises, a modelagem deliberada da pedra reforça que a função ali era intencional, e não apenas uma marcação casual.
O papel da tecnologia
Para confirmar a teoria, pesquisadores utilizaram uma combinação de observações arqueológicas com simulações baseadas em inteligência artificial. O sistema Ludii, uma plataforma de modelagem para jogos de tabuleiro históricos, foi usado no processo.
A execução contou com dois jogadores automatizados que competiram entre si em uma versão digital do tabuleiro. As regras utilizadas na simulação foram baseadas em diversos sistemas registrados para pequenos jogos do norte da Europa, como na Escandinávia e na Itália.
Estratégia de bloqueio
Os resultados foram positivos, com os desgastes observados sendo comparáveis aos de “jogos de bloqueio”. A prática incluía restringir o movimento do oponente em vez de capturar peças.
Esse foi o conjunto mais próximo do padrão observado no antigo calcário, já que outras regras testadas não conseguiram reproduzir a mesma abrasão irregular.
Reescrevendo a história
Embora jogos de bloqueio já estivessem presentes no registro arqueológico europeu, eles eram associados principalmente à Idade Média. No entanto, o tabuleiro de Coriovallum indica que essa prática era muito mais antiga, apresentando, já na época romana, regras que não foram preservadas em textos ou obras de arte.
Os detalhes da descoberta foram divulgados pela Universidade de Leiden e o estudo foi publicado na revista científica Antiquity. O trabalho destaca como a simulação por inteligência artificial oferece um novo caminho para a arqueologia.
Com a ajuda da IA, pesquisadores agora podem comparar padrões de desgaste físico com comportamentos modelados digitalmente, o que permite reconstruir regras apenas com as marcas deixadas na pedra.
A descoberta amplia a compreensão da vida nas cidades romanas, provando que o lazer incluía regras regionais complexas. Com o uso de novas tecnologias, a arqueologia consegue agora resgatar experiências cotidianas que o tempo apagou.
- Sob supervisão de Giovanna Gomes