Romênia: o “posto de combustível” da Segunda Guerra Mundial
Maior fornecedor de petróleo do Terceiro Reich, a Romênia mudou de lado nos momentos decisivos da "Guerra de Todos"

Poucos países exerceram uma influência tão significativa nos rumos da Segunda Guerra Mundial quanto a Romênia. Embora raramente seja lembrada entre os protagonistas do conflito, a nação do Leste Europeu foi responsável por abastecer a máquina de guerra nazista durante anos e, mais tarde, contribuiu para enfraquecê-la ao mudar de lado nos momentos decisivos da guerra.
Independente desde 1877, após se desvincular do Império Otomano, o Reino da Romênia reunia quase 20 milhões de habitantes e vivia uma fase de prosperidade após a Primeira Guerra Mundial. A exploração de jazidas petrolíferas iniciada em 1927 e o avanço da industrialização colocaram o país em posição privilegiada na região. Ao mesmo tempo, crescia a influência da Guarda de Ferro, movimento fascista, nacionalista e antissemita liderado por Corneliu Codreanu, que exerceria forte impacto sobre as decisões políticas romenas durante o conflito.
Começo no Eixo
Quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, Bucareste honrou a Aliança Polonês-Romena, vigente desde 1921. O governo permitiu a passagem de tropas polonesas por seu território, facilitou recursos militares e autorizou que as reservas de ouro da Polônia fossem transportadas até portos no Mar Negro, de onde seguiram para bancos em Londres e Paris, escapando do alcance alemão.
A atitude desagradou Adolf Hitler. Ainda assim, o líder nazista prometeu devolver à Romênia territórios perdidos após a derrota da União Soviética, desde que o fornecimento de petróleo fosse mantido. O país aderiu ao Pacto Tripartite e passou a integrar o Eixo sem saber que, no protocolo secreto do pacto Ribbentrop-Molotov, Alemanha e União Soviética já haviam dividido entre si áreas de influência na Europa Central, colocando a Romênia na esfera soviética.
A partir desse momento, o país tornou-se o principal fornecedor de petróleo do Terceiro Reich. Sua produção alcançava 100 mil barris diários e representava cerca de metade do combustível necessário para movimentar a estrutura militar alemã. Apesar da pressão dos Aliados, os romenos permaneceram ao lado da Wehrmacht quando teve início a Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética.
Mais de 600 mil soldados romenos participaram da campanha. O país combateu em 25 batalhas, incluindo a captura de Sebastopol e o chamado Massacre de Odessa. Segundo o historiador Mark Axworthy, a tomada de Odessa foi a mais importante conquista realizada por uma potência menor do Eixo sem apoio substancial da Alemanha.
A contribuição romena não se limitou ao campo de batalha. Engenheiros militares construíram a maior ponte erguida sob fogo inimigo durante a guerra, sobre o rio Dnieper, na Ucrânia. A 3ª Divisão de Montanha participou do maior ataque anfíbio realizado pelo Eixo na Europa, enquanto o general Ioan Dumitrache alcançou Nalchik, o ponto mais distante atingido pelas forças do Eixo no Cáucaso. Em 1944, o general Petre Dumitrescu chegou a comandar um agrupamento que incluía um exército alemão inteiro, situação inédita para um aliado estrangeiro do Terceiro Reich.
Romênia muda de lado
Em agosto de 1943, os Aliados tentaram atingir o coração econômico da parceria entre Berlim e Bucareste. Na Operação Tidal Wave, 177 bombardeiros B-24 partiram da Líbia para atacar os campos petrolíferos e refinarias de Ploiești. A resposta alemã foi intensa. Cinquenta e três aeronaves americanas foram abatidas ou não retornaram às bases, levando a imprensa dos Estados Unidos a apelidar a missão de “Black Sunday”, o Domingo Negro.
A situação mudou radicalmente em 1944. Com a entrada das tropas soviéticas na Romênia, o jovem rei Miguel I liderou um golpe de Estado contra o marechal Ion Antonescu e retirou o país do Eixo. Alemanha e Hungria responderam declarando guerra à antiga aliada. A Romênia então mobilizou 567 mil soldados para combater ao lado dos Aliados.
A mudança teve consequências profundas. O petróleo que durante anos alimentou os exércitos alemães passou a abastecer a União Soviética. Em um momento em que a escassez de combustível já comprometia seriamente a capacidade militar do Terceiro Reich, a perda do principal fornecedor europeu de petróleo representou um golpe decisivo.
A guerra também deixou um legado trágico para a população judaica romena. Segundo a Comissão Wiesel, entre 280 mil e 380 mil judeus foram assassinados pelo Estado romeno nas regiões da Bessarábia, Bucovina e Transnístria. Ainda assim, a rejeição, a partir de 1942, ao plano nazista de deportação para campos de extermínio alemães contribuiu para salvar parte da comunidade judaica. Após o conflito, cerca de 400 mil sobreviventes emigraram para a Palestina.
Com o fim da guerra, a Romênia sofreu pesadas perdas humanas e materiais e passou para a esfera de influência soviética, tornando-se posteriormente uma República Popular. O país que durante anos abasteceu a Alemanha nazista acabaria desempenhando também um papel importante em seu enfraquecimento.
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