Estudo detalha velocidade da armadilha da planta carnívora
Experimentos mostram que células da folha da planta carnívora amolecem rapidamente após o estímulo, permitindo o fechamento veloz

A armadilha-de-Vênus, uma das plantas carnívoras mais conhecidas do mundo, fascina cientistas há séculos por sua capacidade de capturar insetos em uma fração de segundo. Agora, uma nova pesquisa revelou o mecanismo que permite esse movimento extremamente rápido, solucionando um mistério que intrigava pesquisadores desde a época de Charles Darwin.
Segundo o estudo, publicado na revista científica Science, e mencionado pelo The Guardian, o fechamento da armadilha acontece após uma mudança mecânica extremamente rápida nas células da superfície externa da folha. Quando os pelos sensoriais da planta são estimulados por um inseto, essas células se tornam mais flexíveis, permitindo que a estrutura da folha se inverta e se feche em menos de um segundo.
Um mistério que intrigava Darwin
De acordo com o pesquisador Yoël Forterre, físico do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS) e da Universidade de Aix-Marseille, Darwin acreditava que a planta possuía algum tipo de mecanismo semelhante a músculos para realizar movimentos tão rápidos.
No entanto, as plantas não possuem músculos nem nervos. Por isso, durante mais de um século, diversas hipóteses foram propostas para explicar como a armadilha-de-Vênus consegue reagir tão rapidamente ao toque de uma presa.
Segundo Forterre, a descoberta é surpreendente justamente porque mostra que as paredes celulares da planta conseguem alterar suas propriedades mecânicas em um intervalo extremamente curto de tempo.
Um dos grandes desafios da pesquisa foi analisar a armadilha sem provocar seu fechamento acidental. Como a planta reage a estímulos mínimos, até mesmo gotas de água podem ativar o mecanismo.
Para contornar esse problema, os pesquisadores imobilizaram cuidadosamente as folhas utilizando cola odontológica. Dessa forma, a armadilha podia ser acionada normalmente, mas permanecia parada durante as medições.
Os cientistas então utilizaram um equipamento chamado nanoindentador, que consiste em uma ponta metálica capaz de medir a rigidez da superfície da folha. O instrumento permitiu avaliar como as propriedades mecânicas da planta mudavam imediatamente após a ativação dos pelos sensoriais.
Células flexíveis da planta carnívora
Os resultados mostraram que a superfície externa da folha amolece logo após a armadilha ser ativada.
As análises também indicaram que essa mudança não ocorre por perda de água nas células, hipótese que havia sido considerada anteriormente por outros pesquisadores. Em vez disso, as próprias células tornam-se mais flexíveis.
Esse comportamento faz com que a folha mude rapidamente de forma, em um mecanismo comparado pelos pesquisadores ao funcionamento dos brinquedos de borracha conhecidos como poppers, que se viram espontaneamente quando pressionados.
Segundo Forterre, não há conhecimento de outra planta capaz de alterar tão rapidamente as propriedades mecânicas de suas células.
Duas décadas de investigação
Forterre afirmou que seu interesse pela armadilha-de-Vênus começou há cerca de 20 anos, quando um colega levou uma dessas plantas para o laboratório.
Como físico, ele passou a investigar quais forças e mecanismos eram responsáveis pelo movimento. Desde então, a mecânica da planta tornou-se um dos principais focos de sua pesquisa.
Para o cientista, a descoberta reforça o quanto as plantas são organismos complexos. Embora não possuam sistemas nervosos como os animais, elas conseguem perceber estímulos do ambiente, transmitir informações internamente, reagir a ameaças e até capturar alimento.
A nova pesquisa oferece uma explicação detalhada para um dos movimentos mais rápidos do reino vegetal e ajuda a esclarecer como a armadilha-de-Vênus executa uma estratégia de caça que continua impressionando cientistas mais de um século após despertar a curiosidade de Darwin.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes