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‘Pra Frente Brasil’: a origem da música cantada na Copa de 1970

Entenda de onde veio e o contexto ao qual estava inserida a famosa música que virou instrumento de propaganda da ditadura

Garrastazu Medici ao lado da seleção brasileira em 1970 - Crédito: Getty Images

Algumas músicas se tornam verdadeiros fenômenos. Quando estão associadas a períodos históricos então elas se tornam inesquecíveis. É o caso de Waka Waka, por exemplo, que foi criada para a Copa do Mundo de 2010 e é lembrada até hoje sempre que alguém menciona o evento. Mas nem sempre canções icônicas vêm associadas a memórias de todo positivas. O Brasil mesmo teve uma música de Copa muito popular, a famosa ‘Pra Frente Brasil‘, que acabou sendo usada como propaganda pela ditadura.

De repente é aquela corrente pra frente parece que todo o Brasil deu a mão, todos unidos na mesma emoção“. Foi com esses versos simples e de fácil memorização, aliados a uma melodia vibrante, que a obra ajudou a criar um clima de entusiasmo em torno da equipe que conquistaria o tricampeonato mundial em 1970.

Composta por Miguel Gustavo e Raul de Souza, a canção nasceu com a finalidade de celebrar a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo do México. Ela foi a grande vencedora de um concurso promovido pelos patrocinadores dos jogos e rapidamente conquistou o povo.

Contexto

No entanto, a trajetória da música não pode ser separada do contexto político em que surgiu. Naquela época, o Brasil vivia os anos mais duros da ditadura militar instaurada em 1964. O Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado em 1968, havia suspendido diversas garantias constitucionais, ampliado a censura e fortalecido os mecanismos de repressão do regime. Era, conforme menciona uma matéria da revista Veja, também o período do chamado “milagre econômico”, fase em que o governo divulgava índices de crescimento acelerado da economia como prova do sucesso do projeto político dos militares.

Emilio Garrastazu Médici era o presidente. A fonte lembra que, antes dos jogos, o general costumava surgir na TV como um torcedor comum e que, certa vez, tentou escalar a seleção. Sugeriu que o centroavante Dario fosse colocado como titular. A ideia foi, no entanto, rejeitada pelo técnico João Saldanha.

Eu não escalo ministros, por que ele vai escalar jogadores?”, teria dito o treinador.

O técnico era Ligado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e foi logo substituído por Zagalo. Dario, o escolhido de Médici, foi convocado, mas acabou nem jogando.

Pelé é carregado após título na Copa do Mundo de 1970 – Getty Images

A música como propaganda

Naquele ano, a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo ofereceu ao governo do general uma oportunidade única. Afinal, o futebol, que àquela altura já era uma grande paixão nacional, acabou por se tornar um poderoso instrumento de construção de uma imagem positiva do país. Nesse contexto, ‘Pra Frente Brasil’ passou a ser utilizada como símbolo do orgulho nacional e também da ideia de um Brasil forte, unido e vitorioso.

Embora a canção não tenha sido criada oficialmente pelo governo, sua difusão, no fim, acabou sendo associada à propaganda do regime. Os versos exaltavam a união dos brasileiros em torno da seleção e reforçavam uma visão otimista do país, justamente em um momento em que denúncias de censura, perseguições políticas, prisões arbitrárias e torturas eram mantidas longe do conhecimento da maior parte da população.

Sobre os compositores

O autor da letra, Miguel Gustavo, já era um nome conhecido da comunicação brasileira. Jornalista e compositor, ele construiu carreira escrevendo sambas, marchinhas de Carnaval e jingles publicitários de enorme sucesso. Entre seus trabalhos mais famosos estavam campanhas para marcas como Casas da Banha e Leite Glória. Também compôs músicas populares, como Dança da Boneca, gravada por Chacrinha para o Carnaval de 1967. Miguel Gustavo morreu em 1972, apenas dois anos após o lançamento de Pra Frente Brasil, aos 49 anos.

Já a melodia foi criada pelo trombonista Raul de Souza, músico respeitado internacionalmente. Além do trombone, ele domina instrumentos como o saxofone e trabalhou ao lado de artistas de destaque, como Sérgio Mendes, Milton Nascimento e o saxofonista norte-americano Sonny Rollins. Foi ele quem gravou a parte instrumental da canção com a Orquestra da Rádio Globo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.