A Copacabana “original” e fora do Brasil que inspirou o RJ
Cidade às margens do lago Titicaca deu origem ao nome do bairro e da praia carioca de Copacabana; saiba mais!

Quando se fala em Copacabana, a imagem que surge imediatamente para a maioria das pessoas é a da famosa praia carioca, com seu calçadão movimentado, o mar azul e uma das paisagens urbanas mais conhecidas do planeta. Poucos sabem, porém, que o nome que se tornou símbolo do Rio de Janeiro nasceu a mais de 3,8 mil metros de altitude, em uma pequena cidade boliviana localizada às margens do lago Titicaca.
A Copacabana original fica na Bolívia e carrega uma história que mistura tradições indígenas, devoção religiosa, colonização espanhola e até contrabando. Foi desse município andino que surgiu o nome que, séculos depois, seria adotado pelo bairro e pela praia mais célebres do Brasil.
Raízes culturais
Em reportagem da BBC, Jhonny Ucedo, diretor de Cultura e Turismo da cidade boliviana, a origem do nome é anterior à chegada dos europeus à região. De acordo com ele, o termo já era utilizado pelos povos indígenas que habitavam a área e está ligado à língua aimará.
“A origem desse nome vem da expressão kota kahuana, do dialeto aimará, que significa ‘vista do lago’”, explica.
O aimará continua sendo uma das línguas oficiais da população local, ao lado do espanhol. Ao longo dos séculos, o nome também passou a ser associado à tradição católica, principalmente por causa da devoção à Virgem de Copacabana, considerada a padroeira da cidade.
A relação entre a santa e a região começou em 1583, quando colonizadores espanhóis introduziram no território boliviano uma representação de Nossa Senhora da Candelária. Com o passar do tempo, a figura ganhou características próprias e passou a ser conhecida como Nossa Senhora de Copacabana. A devoção rapidamente se espalhou entre os habitantes da região e se consolidou como um dos principais símbolos religiosos do país.
Foi justamente a imagem da santa que ajudou a levar o nome Copacabana até o Rio de Janeiro.
A Copacabana brasileira
Segundo relata o historiador Milton Teixeira à BBC, durante o século XVIII comerciantes conhecidos como “peruleiros” realizavam rotas comerciais entre territórios da atual Bolívia e o Brasil. Entre as mercadorias transportadas estavam produtos diversos e, em determinado momento, uma imagem da santa acabou chegando à então capital da colônia portuguesa.
“Ela chegou aqui por meio dos peruleiros, comerciantes que traziam diversas mercadorias da atual região que hoje pertence à Bolívia até o Brasil”, afirma.
O historiador explica que existem versões diferentes sobre qual imagem foi transportada. Alguns acreditam que se tratava da própria imagem venerada na Bolívia; outros defendem que era apenas uma réplica.
Naquele período, a área que atualmente corresponde ao bairro de Copacabana tinha outro nome. Era conhecida como Sacopenapã, palavra de origem tupi associada ao som produzido pelos socós, aves comuns na região.
Inicialmente, a imagem foi levada para a capela da Misericórdia, no Centro do Rio de Janeiro. Entretanto, a recepção não teria sido das melhores.
“Os irmãos da Misericórdia diziam que atraía gente estranha, que não era algo bom para a região. Parece que teve uma reação negativa na época”, relata Teixeira à rede.
Posteriormente, a santa foi transferida para a Pedra de Copacabana, local onde hoje se encontra o Forte de Copacabana. Em 1746 foi construída uma capela dedicada à devoção mariana, transformando a área em ponto de peregrinação e celebrações religiosas.
A partir daquele momento, o nome Copacabana começou a ganhar força entre os moradores da cidade. A devoção à santa tornou-se tão significativa que acabou substituindo gradualmente o antigo nome indígena da região.
Durante boa parte do século XIX, porém, o local permaneceu praticamente desabitado, composto por extensas áreas de areia. O cenário começou a mudar em 1892, quando foi inaugurado um túnel ligando o bairro a Botafogo. A obra facilitou o acesso e impulsionou o crescimento urbano.
Com a expansão populacional, o nome Copacabana consolidou-se definitivamente. Já no início do século XX, a denominação passou a ser utilizada também para a praia, que anteriormente era conhecida como Praia da Igrejinha.
Ao longo das décadas seguintes, o bairro transformou-se em um dos mais importantes do país.