Lotte Reiniger: a cineasta alemã que criou animação antes mesmo de Disney
A cineasta alemã Lotte Reiniger foi pioneira no mundo da animação ao lançar "As Aventuras do Príncipe Achmed" uma década antes de "Branca de Neve", da Disney

Quando se fala na origem dos longas-metragens de animação, o nome de Walt Disney costuma ocupar o centro da narrativa. Durante décadas, “Branca de Neve e os Sete Anões”, lançado em 1937, foi amplamente divulgado como o primeiro filme de animação de longa duração da história.
No entanto, mais de dez anos antes da estreia da produção da Disney, uma jovem cineasta alemã já havia realizado um feito semelhante. Seu nome era Lotte Reiniger, e sua obra mais célebre, “As Aventuras do Príncipe Achmed”, completou um século em 2026 como um dos marcos mais importantes da história da animação.
Lançado em 1926, o filme é reconhecido como o mais antigo longa-metragem de animação ainda preservado. Produzido em uma época em que o cinema ainda era mudo e quando mulheres raramente ocupavam cargos de direção, o trabalho de Reiniger destacou-se não apenas pela inovação técnica, mas também pela criatividade de uma linguagem visual baseada em silhuetas animadas.
Despertar nos bastidores
A trajetória que levaria a cineasta ao reconhecimento internacional começou de maneira pouco convencional. Ainda jovem, Reiniger participou de uma adaptação cinematográfica do conto “O Flautista de Hamelin”. Sua função, porém, não estava ligada à atuação. Em vez de aparecer diante das câmeras, ela ajudava a lidar com os ratos utilizados na produção.
Apesar da experiência modesta, o contato com aquele filme acabou se revelando decisivo para seu futuro. Segundo a própria Reiniger relataria décadas depois em seu livro “Shadow Puppets, Shadow Theatres and Shadow Films”, os animais usados nas gravações não obedeciam às necessidades da produção. Como solução, a equipe recorreu a ratos de madeira, movimentados quadro a quadro para criar a ilusão de deslocamento na tela.
Este foi meu primeiro contato com animação”, disse Reiniger.
A experiência despertou uma ideia. Desde a infância, ela demonstrava interesse pelo teatro de sombras e costumava criar pequenas apresentações utilizando silhuetas recortadas para encenar histórias inspiradas em Shakespeare. Ao conhecer a técnica de animação quadro a quadro, percebeu que poderia levar aqueles personagens para o cinema.

Do trabalho manual aos primeiros movimentos
Nascida em Berlim, em 1899, Reiniger já possuía habilidade com recortes e silhuetas muito antes de ingressar no cinema. Foi justamente essa aptidão que lhe abriu portas na indústria cinematográfica. Em “O Flautista de Hamelin”, ela havia sido responsável pela criação manual das cartelas de títulos utilizadas durante o filme.
Pouco depois, começou a desenvolver suas próprias experiências de animação. Para isso, colocava figuras articuladas recortadas sobre uma superfície de vidro iluminada por baixo. A cada pequeno movimento dos personagens, uma câmera registrava uma nova imagem. Quando as fotografias eram exibidas em sequência, surgia a ilusão de movimento.
O método exigia enorme dedicação. Mais de mil quadros eram necessários para produzir apenas um minuto de filme. Ainda assim, Reiniger perseverou. Em 1919, concluiu seu primeiro curta-metragem, “The Ornament of the Loving Heart”. Outros trabalhos vieram nos anos seguintes, muitos deles inspirados em contos de fadas.
“Ela sempre se interessou por contos de fadas”, diz Jez Stewart, curador de animação do British Film Institute. “Ela chegou a fazer um comercial para o creme Nivea.”
Naquele período, a animação ainda engatinhava como linguagem cinematográfica. Mickey Mouse sequer havia surgido. Por isso, os filmes de Reiniger chamavam atenção pela originalidade e pelo refinamento visual.
Proposta inovadora
A oportunidade de dar um salto maior surgiu em 1923, quando um banqueiro de Berlim ofereceu financiamento para que ela produzisse uma obra mais ambiciosa. A proposta permitiu que Reiniger realizasse um projeto sem precedentes: um longa-metragem de animação.
“A oportunidade de fazer um longa-metragem de animação naquela época era uma anomalia”, explica Stewart. “Mas essa anomalia estava ligada à maneira como Reiniger fazia filmes. Era um método artesanal e acessível, que utilizava recursos limitados.”
A produção de “As Aventuras do Príncipe Achmed” envolveu uma equipe reduzida. Além de dirigir, Reiniger criou os personagens recortando figuras em papelão e chumbo, conectadas por dobradiças de arame que permitiam seus movimentos. Ela também desenvolveu o roteiro, combinando diferentes histórias inspiradas nos contos do Oriente Médio.
O filme acompanha o príncipe Achmed em uma série de aventuras marcadas por magia, criaturas fantásticas e confrontos com um poderoso feiticeiro. Em uma das passagens mais lembradas, personagens se transformam em animais e monstros durante uma batalha que inclui leões, escorpiões e dragões.
Para Reiniger, a animação permitia alcançar possibilidades que o cinema convencional da época não conseguia oferecer. Como ela própria escreveu em um artigo, a técnica lhe permitia que “mostrasse eventos que não poderiam ser realizados por nenhum outro meio”.

Soluções técnicas
Além da narrativa, a obra também se destacou por suas soluções técnicas. Entre elas estava um sistema pioneiro de profundidade visual criado por Reiniger por meio de diferentes camadas de vidro posicionadas sob a câmera.
“Ela introduziu uma versão inicial da câmera multiplano”, explica Cristina Formenti, presidente da Sociedade de Estudos de Animação. “Ela a usou para criar uma sensação de profundidade. Se você assistir ao filme, verá que não se trata apenas de uma imagem plana.”
O dispositivo consistia em uma estrutura elevada que permitia filmar através de múltiplos níveis. Personagens e cenários eram posicionados em camadas diferentes, produzindo uma sensação de distância e tridimensionalidade.
Anos depois, Walt Disney receberia uma patente relacionada à câmera multiplano e passaria a ser amplamente associado à invenção da técnica. Segundo Formenti, a versão desenvolvida pelos estúdios Disney era mais sofisticada, mas Reiniger foi a primeira pessoa conhecida a utilizá-la.
Obviamente, a versão de Disney era mais complexa”, diz Formenti. “Mas Reiniger é a primeira pessoa conhecida por tê-la usado.”
O resgate de um clássico atemporal
O sucesso posterior da Disney também contribuiu para que o trabalho da alemã fosse parcialmente ofuscado. Durante décadas, materiais promocionais de “Branca de Neve e os Sete Anões” reforçaram a ideia de que aquela havia sido a primeira animação de longa duração. “Disney era um gênio em muitos aspectos”, diz Stewart. “Autopromoção e marketing eram definitivamente um deles.”
Ainda assim, os historiadores do cinema reconhecem hoje a importância de “As Aventuras do Príncipe Achmed”. Alguns pesquisadores mencionam a existência de “El Apóstol”, produzido pelo argentino Quirino Cristiani em 1917, como possível precursor dos longas animados. Entretanto, como não existem cópias preservadas da obra, permanece a incerteza sobre sua duração e características.
Por isso, Stewart prefere uma definição cautelosa para o filme de Reiniger, descrevendo-o como “o primeiro longa-metragem de animação que sobreviveu”.
Concluído após três anos de trabalho, o filme estreou em maio de 1926, quando Reiniger tinha apenas 26 anos, repercute a BBC.
“Dar a alguém três anos para fazer um filme – isso não acontecia naquela época”, diz Stewart. “É mais uma forma pela qual este filme é uma completa anomalia.”

Ao longo do século seguinte, “As Aventuras do Príncipe Achmed” continuou a ser exibido em diferentes países e ganhou novas trilhas sonoras e interpretações musicais. Sua influência alcançou gerações posteriores de animadores e cineastas.
Mas, para muitos estudiosos, o aspecto mais impressionante continua sendo a própria existência da obra. Produzido por uma jovem artista em um momento em que quase ninguém acreditava que um longa-metragem animado fosse possível, o filme permanece vivo cem anos depois.
“É difícil pensar em alguém equivalente a Lotte Reiniger”, diz Stewart. “Essa jovem artista teve a visão e o talento para criar um clássico atemporal que ainda ressoa com o público do mundo todo. Mesmo 100 anos depois, ainda nos perguntamos: ‘Como ela conseguiu isso?’”