‘Tecido zumbi’ de pepino-do-mar sobrevive por anos fora do corpo e intriga cientistas
Estudo com pepino-do-mar revelou fragmentos vivos mais de três anos após separação do organismo original, desafiando conceitos sobre vida e morte

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Memorial, no Canadá, revelou um fenômeno biológico incomum que coloca em xeque conceitos tradicionais sobre vida, morte e envelhecimento. Publicado na revista científica Science Advances, o estudo descreve como fragmentos de tecido de um pepino-do-mar da espécie Psolus fabricii permaneceram vivos e funcionais por mais de três anos após serem separados do organismo original.
Os pesquisadores verificaram que os fragmentos continuaram executando diversas atividades associadas a organismos vivos. Durante o período de observação, os tecidos foram capazes de cicatrizar ferimentos, reorganizar sua estrutura interna, absorver nutrientes presentes no ambiente e manter atividade celular e imunológica.
Diante dessas características, a equipe passou a se referir aos fragmentos como “tecidos zumbis“. Embora não sejam organismos completos, não consigam se reproduzir e não tenham capacidade de se desenvolver em novos indivíduos, eles permanecem ativos por períodos muito superiores ao esperado para tecidos complexos isolados.
Descoberta inesperada
A descoberta ocorreu de forma inesperada durante um experimento conduzido pela pesquisadora Sara Jobson. Pequenos fragmentos de tecido de Psolus fabricii foram deixados em tanques abastecidos com água do mar corrente. A expectativa era de que o material se deteriorasse rapidamente, mas os tecidos permaneceram íntegros por semanas, depois por meses e, posteriormente, por anos.
A partir dessa observação, os cientistas iniciaram uma série de análises para compreender os mecanismos responsáveis pela sobrevivência prolongada dos fragmentos. Os experimentos mostraram que, logo após a separação, os tecidos iniciavam um intenso processo de reparação. Células danificadas eram removidas enquanto novas células surgiam para reconstruir as áreas lesionadas. Em menos de uma semana, todas as amostras avaliadas haviam cicatrizado completamente os cortes provocados durante o experimento.
A equipe também observou atividade contínua de mitose, responsável pela divisão celular, e apoptose, processo de eliminação programada de células comprometidas. Além disso, células imunológicas conhecidas como celomócitos migravam para as regiões afetadas, auxiliando na prevenção de infecções e na remoção de material danificado.
Uma das principais questões levantadas pelo estudo era como os tecidos conseguiam se manter ativos sem estruturas como boca ou sistema digestivo. Os testes indicaram que os fragmentos absorviam diretamente da água do mar aminoácidos dissolvidos no ambiente. Essa capacidade foi mais intensa nas primeiras semanas após a separação, período em que a demanda energética para a cicatrização era maior. Os autores também apontam a possibilidade de utilização de reservas internas para sustentar as funções biológicas.
Outro aspecto considerado surpreendente foi o ambiente em que os tecidos sobreviveram. Diferentemente de culturas celulares mantidas em condições altamente controladas, os fragmentos permaneceram em água do mar natural, repleta de bactérias, fungos, microrganismos e matéria orgânica. Ainda assim, continuaram vivos. Segundo os pesquisadores, isso sugere a existência de mecanismos imunológicos e bioquímicos altamente eficientes.
Ao longo do tempo, os fragmentos passaram por transformações estruturais significativas. Depois de uma redução inicial de tamanho, voltaram a crescer e, em alguns casos, ultrapassaram suas dimensões originais. Os tecidos musculares diminuíram gradualmente, enquanto o tecido conjuntivo passou a predominar. Para os autores, essa reorganização pode representar uma estratégia para reduzir o gasto energético com estruturas que perderam relevância após a separação do organismo.
Mesmo após mais de três anos, os pesquisadores não identificaram sinais claros de envelhecimento ou perda funcional.

A equipe também avaliou se o fenômeno poderia ocorrer em outros equinodermos, grupo que inclui estrelas-do-mar, ouriços-do-mar e outros pepinos-do-mar. Embora alguns tecidos de espécies diferentes tenham sobrevivido por semanas ou meses, todos acabaram se degradando. Nenhum apresentou a mesma longevidade observada em Psolus fabricii, o que sugere que a característica pode ser exclusiva da espécie ou depender de mecanismos biológicos ainda desconhecidos.
Os autores afirmam que ainda não é possível determinar qual vantagem evolutiva estaria associada ao fenômeno e evitam classificar os tecidos como imortais. No entanto, os resultados indicam que eles permaneceram vivos e funcionais por mais de três anos sem apresentar sinais evidentes de deterioração, repercute a CNN Brasil.
Novas possibilidades
Segundo os pesquisadores, a descoberta pode abrir novas possibilidades para áreas como medicina regenerativa, engenharia de tecidos e pesquisas sobre envelhecimento. Mais do que isso, os chamados “tecidos zumbis” oferecem uma oportunidade incomum para investigar como estruturas biológicas complexas conseguem manter funções vitais de forma autônoma durante períodos extremamente longos.
Para a equipe, a principal implicação do estudo é o questionamento de uma ideia amplamente aceita na biologia: a de que tecidos complexos inevitavelmente morrem pouco tempo depois de serem separados do organismo ao qual pertencem.