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Naufrágios dos verdadeiros piratas do Caribe são encontrados nas Bahamas

Expedição encontrou embarcações da era de ouro da pirataria em Nassau, nas Bahamas, além de armas, munições e casco de navio queimado

Casco de madeira carbonizado de navio naufragado encontrado nas Bahamas / Crédito: Reprodução/Wreckwatch TV

Arqueólogos identificaram nas Bahamas os primeiros naufrágios associados aos piratas que atuaram no Caribe durante o fim do século 17 e o início do século 18. A descoberta foi feita no porto de Nassau, na ilha de Nova Providência, antigo refúgio de figuras históricas como Barba Negra e Calico Jack Rackham.

A expedição encontrou seis naufrágios na área portuária, dos quais três foram datados do período conhecido como “era de ouro da pirataria”, entre as décadas de 1690 e 1720. A investigação ocorreu após a concessão da primeira autorização oficial para mergulhos em uma zona até então fechada do porto.

Os pesquisadores acreditam que os vestígios encontrados podem fornecer informações inéditas sobre a atuação dos piratas que transformaram Nassau em uma base de operações para ataques marítimos e divisão de saques. Entre os achados estão um casco de madeira carbonizado, um canhão giratório montado em pivô, um canhão de ferro, uma pilha com 25 balas de mosquete de chumbo e uma pedra de amolar utilizada para afiar espadas.

Segundo os arqueólogos, os piratas frequentemente destruíam os navios capturados após retirar suas cargas, armamentos e equipamentos. O casco encontrado preserva sinais compatíveis com essa prática, incluindo evidências de incêndio e a presença do lastro de pedra ainda submerso.

O arqueólogo marinho britânico Sean Kingsley, codiretor do projeto, afirmou que os resultados superaram as expectativas da equipe. “Essas descobertas são apenas a ponta do iceberg. Fiquei chocado com a sobrevivência inesperada de um casco de madeira – afinal, os navios eram a principal ferramenta do terror pirata. Pode muito bem haver dezenas de outros naufrágios dentro e ao redor do porto.”

Sobre a descoberta do casco queimado, ele acrescentou: “Ver e tocar aquilo foi realmente um momento único na vida e bastante emocionante.”

Verdadeiros piratas do Caribe

A equipe passou a considerar a possibilidade de que o naufrágio esteja relacionado ao Fancy, navio-almirante do pirata Henry Avery. Em 1695, Avery realizou um dos assaltos mais lucrativos da história da pirataria, obtendo riquezas avaliadas atualmente em mais de 85 milhões de libras esterlinas (mais de 575 milhões de reais). O Fancy foi incendiado até a linha d’água após suas operações.

Para Michael Pateman, codiretor da expedição e embaixador de história, cultura e museologia das Bahamas, as características do naufrágio reforçam a hipótese de uma ligação com atividades piratas. “Incendiar navios até a linha d’água era uma tática infame para esconder crimes das autoridades. O casco do Nassau apresenta todos os sinais de travessuras de piratas.”

Ele também destacou o armamento encontrado. “O navio estava fortemente armado, especialmente com canhões giratórios… Instaladas nos corrimãos do convés, essas armas antipessoal disparavam fogo devastador contra as tripulações inimigas.”

Ilustrações representando Edward Teach, conhecido como o pirata Barba Negra, e Henry Avery / Crédito: Getty Images

Além dos elementos associados à pirataria, os arqueólogos localizaram outro naufrágio contendo cordames, garrafas de vidro, tijolos de cozinha e 143 cachimbos de barro. Alguns dos cachimbos apresentavam decoração com unicórnios, cavalos, coroas e o brasão real da Inglaterra, indicando fabricação em Londres por volta de 1740.

De acordo com Kingsley, esse segundo conjunto de vestígios oferece uma perspectiva sobre a transformação de Nassau após o declínio da atividade pirata. “Nenhum outro item foi encontrado em um navio naufragado. O navio provavelmente era inglês e navegou para Nassau logo após a ameaça pirata ter sido sufocada. A sobrevivência do naufrágio, bastante danificado pelo desenvolvimento costeiro, é um milagre. A carga do comerciante, com vinho em garrafas de vidro e cachimbos sofisticados, lança uma rara luz sobre a recuperação de Nassau como um porto comercial normal, após a anarquia pirata.”

A operação foi conduzida pela New Providence Pirates Expedition, formada por arqueólogos e cineastas, em parceria com o canal Wreckwatch. Além dos mergulhos, os pesquisadores analisaram documentos históricos com cerca de 300 anos, mapas antigos e cavernas que, segundo relatos históricos, teriam sido utilizadas por piratas para esconder tesouros, repercute o The Guardian.

O cineasta e explorador Chris Atkins destacou os desafios enfrentados durante os trabalhos. “As marés trazem correntes perigosas às suas águas duas vezes por dia. É o lar de grupos de tubarões notórios. Esta foi uma expedição arriscada, com grandes chances de não encontrarmos nada.”

Apesar das dificuldades, a equipe considera que os naufrágios representam uma oportunidade inédita para compreender como os piratas viveram e operaram no principal refúgio da pirataria caribenha. As descobertas também servem de base para novas pesquisas sobre a história marítima das Bahamas e do Atlântico durante o período colonial.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.