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Naufrágio na Itália revela comércio de vinhos da Antiguidade no Mediterrâneo

Carga com mais de 300 ânforas encontrada no Mar Jônico pode esclarecer rotas comerciais e o transporte de vinho no Mediterrâneo antigo

Antigas ânforas encontradas no local do naufrágio / Crédito: Divulgação/Soprintendenza ABAP pela cidade de Reggio Calabria e Vibo Valentia

A descoberta de um naufrágio com mais de 300 ânforas na costa sul da Itália pode ampliar o conhecimento sobre as rotas comerciais e a circulação de mercadorias no Mediterrâneo durante a Antiguidade. Localizado nas águas do Mar Jônico, próximo à cidade de Monasterace, o sítio arqueológico é datado dos séculos 5 e 4 a.C. e preserva uma carga que permaneceu submersa por mais de dois mil anos.

Os pesquisadores acreditam que o achado pode fornecer informações importantes sobre a produção e o comércio de vinho na região da Magna Grécia, conjunto de colônias gregas estabelecidas no sul da península Itálica, segundo comunicado no Facebook da Soprintendenza ABAP para a cidade de Reggio Calabria e Vibo Valentia.

As análises iniciais indicam que as ânforas encontradas apresentam características semelhantes às de recipientes produzidos em oficinas localizadas tanto na Magna Grécia quanto na Sicília.

Antigas ânforas encontradas no local do naufrágio / Crédito: Divulgação/Soprintendenza ABAP pela cidade de Reggio Calabria e Vibo Valentia

Descoberta e preservação

A descoberta ocorreu durante estudos de viabilidade realizados em 2023 para a implantação de um parque eólico offshore. Utilizando sistemas avançados de mapeamento do fundo marinho e técnicas de imagem subaquática, especialistas identificaram o naufrágio durante um trabalho que reuniu arqueólogos marinhos, geólogos, físicos, químicos e biólogos marinhos.

Após a conclusão da investigação inicial, os pesquisadores encaminharam um relatório técnico à Superintendência de Arqueologia, Belas Artes e Paisagem da Cidade Metropolitana de Reggio Calabria e da Província de Vibo Valentia. Com base nos resultados, as autoridades italianas deram início a um programa voltado à proteção do patrimônio arqueológico submerso em águas profundas.

O projeto é financiado pelo Ministério da Cultura da Itália e conta com uma equipe responsável pelo planejamento, recuperação, conservação e futura apresentação pública dos materiais encontrados. A operação é coordenada pela arquiteta Roberta Filocamo, enquanto a arqueóloga subaquática Alessandra Ghelli lidera o planejamento e os trabalhos de campo.

Também participam da iniciativa os arqueólogos marinhos Laura Sanna e Francesco Tiboni, além de restauradores e especialistas em conservação. A ação recebe ainda apoio da Unidade de Mergulho dos Carabinieri de Messina e da Unidade de Proteção do Patrimônio Cultural de Cosenza, repercute o Archaeology News.

Em 2025, os trabalhos foram ampliados com a realização de um levantamento fotogramétrico detalhado. A técnica permitiu criar modelos digitais precisos do naufrágio e mapear a disposição da carga no fundo do mar. Os estudos revelaram que as ânforas estão distribuídas em dois agrupamentos distintos, separados por cerca de dez metros.

Segundo os pesquisadores, essa divisão provavelmente foi causada pela pesca de arrasto de fundo. Equipamentos utilizados nesse tipo de atividade teriam alterado a configuração original da carga, aumentando as preocupações sobre a preservação do sítio arqueológico.

Visão geral da carga encontrada no local do naufrágio / Crédito: Divulgação/Soprintendenza ABAP pela cidade de Reggio Calabria e Vibo Valentia

Embora as diretrizes internacionais para o patrimônio subaquático geralmente recomendem a preservação dos vestígios em seu local original, os arqueólogos decidiram adotar uma estratégia diferente neste caso. A ameaça contínua representada pela pesca de arrasto levou a equipe a planejar a recuperação integral da carga.

O objetivo é garantir a proteção de longo prazo dos artefatos, além de possibilitar estudos científicos mais aprofundados, trabalhos de restauração e futuras exposições ao público. Atualmente, os pesquisadores realizam inspeções detalhadas do naufrágio, documentação fotogramétrica em alta resolução, análises das ânforas e coleta de amostras para testes laboratoriais.

Os estudos também buscam avaliar o estado de conservação da cerâmica após séculos submersa. Os resultados deverão orientar os procedimentos de recuperação e definir os métodos de restauração mais adequados para cada peça.

Além do valor arqueológico dos objetos, os especialistas esperam que as ânforas permitam identificar seus locais de fabricação e esclarecer as conexões comerciais entre o sul da Itália, a Sicília e outras regiões do Mediterrâneo durante o período clássico.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.