Vítor Soares / Arqueologia

Incrivelmente preservado: confira 5 curiosidades sobre o Homem de Tollund

Encontrado em um pântano na Dinamarca em meados do século passado, o Homem de Tollund impressiona por seu estado de preservação

A múmia do Homem de Tollund
A múmia do Homem de Tollund - Sven Rosborn via Wikimedia Commons

Era ano de 1950, quando uma família que extraía turfa no pântano de Bjældskovdal, na Dinamarca, para usar como combustível, fez a maior descoberta de suas vidas. Naquele ambiente úmido jazia o corpo incrivelmente preservado de um homem. A aparência estava tão intacta que os trabalhadores imaginaram estar diante da vítima de um assassinato recente.

Mas o que veio a seguir surpreendeu ainda mais os dinamarqueses: aquele corpo era bem mais antigo. Na verdade, o homem havia morrido cerca de 2.400 anos antes, durante a Idade do Ferro, e seu corpo permanecera preservado graças às condições químicas únicas do pântano.

Desde sua descoberta, cientistas vêm estudando o chamado Homem de Tollund para reconstruir detalhes sobre sua vida, seus hábitos e as circunstâncias de sua morte. Hoje, ele se encontra preservado no Museu de Silkeborg, perto do local de sua descoberta. A seguir, confira 5 curiosidades sobre ele:

1- Características do corpo

O homem tinha pelo menos 20 anos na época de sua morte. Como sabemos? A presença de dentes do siso indica isso; ainda assim, pesquisadores acreditam que ele provavelmente tinha entre 30 e 40 anos quando morreu. Como destaca uma matéria do portal National Geographic, exames de datação por radiocarbono apontam que sua morte ocorreu entre 405 e 380 a.C.

Com cerca de 1,60 metro de altura, o Homem de Tollund foi encontrado deitado como se estivesse dormindo, ainda com uma corda presa ao pescoço. A autópsia revelou que ele morreu por enforcamento, enquanto sua cabeça e seu rosto chamavam atenção pelo estado extraordinário de conservação.

As condições ácidas do pântano preservaram não apenas seus ossos, mas também muitos tecidos moles, incluindo cérebro e intestinos, ainda intactos, embora reduzidos pelo tempo. Sua pele e unhas escureceram ao longo dos séculos passados no ambiente sem oxigênio do brejo. A decomposição, porém, foi interrompida pelas substâncias químicas produzidas pela degradação do musgo esfagno, principal componente da turfa.

Múmia do Homem de Tollund
Múmia do Homem de Tollund – Divulgação/Museu Silkeborg

2- Povos que viviam na região

O Homem de Tollund viveu no início da Idade do Ferro, antes da expansão de Roma pela maior parte da Europa. Naquela época, a região da Jutlândia era densamente habitada, com fazendas e pequenos povoados espalhados pelo território.

Os habitantes cultivavam cereais, criavam animais e realizavam rituais religiosos ligados aos brejos da região. Esses rituais frequentemente envolviam oferendas, como alimentos e armas, e, em alguns casos, até corpos humanos.

Pesquisadores modernos acreditam que os pântanos eram considerados lugares sagrados, associados aos deuses e ao mundo espiritual. Como esses povos não deixaram registros escritos, porém, ainda não se sabe exatamente qual era o significado de tais cerimônias.

3- Roupas que usava

Os pântanos são conhecidos por preservar não apenas corpos, mas também roupas antigas. Em muitos casos, tecidos e acessórios sobreviveram durante milênios graças às condições do solo.

O Homem de Tollund, no entanto, usava muito pouco. Foi encontrado nu, portando apenas um boné de couro e um cinto.

Análises posteriores indicaram que ele provavelmente utilizava sapatos em parte do ano, embora passasse longos períodos andando descalço. A barba curta em seu rosto também sugere que costumava se barbear.

Restos mortais do Homem de Tollund / Crédito: Licença Creative Commons/Museu de Silkeborg

4- Última refeição

Em 2021, pesquisadores conseguiram identificar o conteúdo da última refeição consumida pelo Homem de Tollund. Segundo o National Geographic, ele havia ingerido uma espécie de mingau feito com cevada, sementes silvestres, linho e peixe.

O exame intestinal revelou ainda algo importante: diferentemente de outros famosos corpos de pântano, ele não apresentava sinais de consumo de plantas alucinógenas ou medicinais antes da morte, as quais costumam ser associadas a rituais de sacrifício.

5- Causa da morte

Mesmo assim, muitos cientistas acreditam que o Homem de Tollund tenha sido sacrificado em um ritual. A grande variedade de sementes e ervas encontradas em seu sistema digestivo lembra a alimentação identificada em outros corpos de pântano considerados vítimas de cerimônias religiosas.

Alguns arqueólogos sugerem que esses sacrifícios poderiam ocorrer em períodos de crise ambiental, talvez como tentativa de recorrer aos deuses diante de colheitas ruins ou ameaças à sobrevivência da comunidade.

Há, contudo, outras hipóteses. O Homem de Tollund pode ter sido um criminoso executado, alguém morto em um ato de vingança ou até uma vítima de suicídio. Outros corpos encontrados em pântanos do norte da Europa mostram sinais de assassinatos violentos e até mutilações.

Ainda assim, alguns detalhes chamam atenção. Seu corpo foi cuidadosamente acomodado, e seus olhos e boca haviam sido fechados. Além disso, naquela época, cremações e sepultamentos tradicionais eram muito mais comuns do que abandonar cadáveres em pântanos.

Por esse motivo, muitos pesquisadores acreditam que o Homem de Tollund teria sido vítima de um ritual sagrado.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.