Vítor Soares / Curiosidades

O lendário Rei Arthur realmente existiu? Entenda o debate!

Entre as lendas e a história, historiadores divergem sobre a possível existência do Rei Arthur, figura central de antigos mitos medievais

Pintura representando o Rei Arthur / Crédito: Domínio Público

A figura do Rei Arthur ocupa um lugar central no imaginário medieval europeu, associada a narrativas de heroísmo, feitos grandiosos e personagens icônicos como os Cavaleiros da Távola Redonda. As histórias que o cercam incluem episódios como a derrota de um gigante, a busca pelo Santo Graal, o governo de um reino a partir de Camelot, entre outras.

No entanto, apesar da força dessas narrativas, uma questão permanece em aberto entre historiadores e especialistas: Arthur realmente existiu ou é apenas fruto da tradição literária?

Discussão complexa

A ausência de consenso entre estudiosos reflete a complexidade do tema. Parte dos pesquisadores considera que o personagem é inteiramente fictício, enquanto outros defendem a possibilidade de que tenha existido uma figura histórica que, ao longo do tempo, foi transformada em lenda.

Entre os que rejeitam a existência de um Arthur histórico está Nicholas Higham, professor emérito de história medieval da Universidade de Manchester. Segundo ele, a evidência mais antiga que menciona Arthur aparece apenas no século 9, em um texto conhecido como ‘Historia Brittonum’, escrito por volta de 829 d.C., possivelmente por um monge chamado Nennius. Nesse registro, Arthur não é descrito como rei, mas como um líder guerreiro que teria defendido a Grã-Bretanha contra invasores saxões por volta do ano 500.

Higham argumenta que o texto apresenta indícios claros de ter sido compilado a partir de fontes anteriores, mas destaca que essas fontes mais antigas não fazem qualquer menção a Arthur. Para o historiador, isso sugere que a figura foi criada pelo próprio autor do século 9. Em sua análise, a tradição arturiana teria origem em uma construção literária: “A tradição arturiana se baseia no que deve ser considerado uma ficção do século 9, portanto, extraordinariamente bem-sucedida, sem dúvida, mas ainda assim uma ficção”, escreve em e-mail ao Live Science.

Antigas representações do Rei Arthur / Crédito: Domínio Público

O contexto histórico da época reforça essa interpretação. No início do século 9, os reinos anglo-saxões dominavam grande parte da Grã-Bretanha e avançavam sobre o País de Gales. Nesse cenário, a criação de um herói capaz de derrotar invasores estrangeiros poderia servir a um propósito simbólico e político.

Higham observa que é possível entender Arthur como parte de uma narrativa construída para representar o sucesso britânico em conflitos contra esses inimigos: “Podemos ter razoável certeza de que o Arthur que conhecemos foi inventado por um clérigo imaginativo no início do século 9, como o último de uma série de corajosos líderes de guerra britânicos, por meio dos quais ele buscava transmitir uma visão do sucesso britânico na guerra contra invasores estrangeiros”.

Outros especialistas compartilham dessa perspectiva. Helen Fulton, professora de línguas e literatura medieval da Universidade de Bristol, também expressa ceticismo quanto à existência histórica do personagem:

Pessoalmente, não acredito que Arthur tenha existido, pois ele não é mencionado em nenhuma fonte antiga” e só aparece no século 9, afirmou também ao Live Science. Segundo ela, a ausência de referências anteriores é significativa, especialmente considerando que a Grã-Bretanha da época contava com diversos governantes e líderes militares documentados. “Claramente, houve reis e líderes guerreiros britânicos que emergiram da ocupação romana da Grã-Bretanha e lutaram entre si e contra os saxões invasores”, acrescentou.

Arthur histórico

Por outro lado, há pesquisadores que defendem a possibilidade de que Arthur tenha sido inspirado em uma figura real. Entre os argumentos apresentados está a análise dos ‘Annales Cambriae’, uma coleção de textos que registram eventos históricos no País de Gales e regiões vizinhas. Bernard Mees, pesquisador de história da Universidade Monash, analisou dois desses registros que mencionam Arthur e concluiu que eles podem ter sido originalmente compostos no século 6.

Embora a cópia mais antiga desses anais date de cerca de 1100, Mees aponta que a linguagem utilizada nas passagens sobre Arthur apresenta características ortográficas compatíveis com o século 6, período posterior ao colapso do domínio romano na Grã-Bretanha, repercute o Live Science.

Esse detalhe, por sua vez, sugere que as referências ao personagem podem ter origem mais antiga do que se pensava. Para Mees, isso reforça a hipótese de que Arthur tenha existido e possivelmente ocupado uma posição de liderança, como a de rei ou príncipe. “Os registros mais antigos não chamam Arthur especificamente de rei, mas é difícil imaginar o que mais ele poderia ter sido”, afirmou.

Ken Dark, professor de arqueologia da Universidade de Cambridge, adota uma posição intermediária. Para ele, a existência de um Arthur histórico é plausível, mas não pode ser comprovada com certeza absoluta. “Com toda a probabilidade, um Arthur histórico realmente existiu, mas não podemos afirmar com certeza absoluta”, disse.

Entre os registros analisados por Dark, destaca-se um dos anais que menciona um evento datado de 537, no qual Arthur e Medraut — também conhecido como Mordred — teriam morrido na Batalha de Camlann. Embora algumas tradições posteriores afirmem que Mordred teria matado Arthur, o texto não apresenta essa informação, limitando-se a registrar a morte de ambos.

Ilustração representando a batalha entre o Rei Arthur e o Sir Mordred / Crédito: Domínio Público

Vale mencionar ainda que o mesmo anais também menciona a ocorrência de uma peste na região, um dado que encontra respaldo em outras evidências históricas e arqueológicas, indicando uma possível epidemia que atingiu o Mediterrâneo em 536 e pode ter se espalhado para a Grã-Bretanha e a Irlanda no ano seguinte.

Outro elemento que sustenta a hipótese de um Arthur histórico é a popularidade do nome em famílias reais entre os séculos 6 e 7. Dark observa que houve um número relativamente elevado de membros da realeza com esse nome nesse período, o que pode indicar a influência de uma figura anterior. Segundo ele, isso sugere que governantes estavam se inspirando em alguém já reconhecido: “estavam se inspirando em um Arthur famoso”.

Ainda assim, mesmo entre os defensores dessa hipótese, há consenso de que o possível Arthur histórico seria muito diferente do personagem das lendas. Elementos como Lancelot, Guinevere e a própria Távola Redonda são amplamente considerados adições posteriores, fruto do desenvolvimento literário ao longo dos séculos. “Ninguém afirma que qualquer figura dos séculos 5, 6 ou mesmo 7 teria sido algo parecido com o Arthur das lendas”, afirmou Dark.

Real e lendário

A professora Mary Bateman, também da Universidade de Bristol, propõe uma visão conciliadora. Para ela, Arthur pode ser entendido simultaneamente como figura histórica e construção mítica. Nesse sentido, o personagem seria resultado de um processo de transformação ao longo do tempo. Segundo Bateman, Arthur pode ser uma figura ou várias figuras “da história que acumularam muitos mitos ao longo do tempo”, ou então uma entidade originalmente mítica que incorporou características de personagens reais.

Diante das evidências disponíveis, a questão sobre a existência do Rei Arthur permanece em aberto. A ausência de registros contemporâneos ao período em que ele teria vivido dificulta conclusões definitivas, enquanto interpretações divergentes dos textos disponíveis alimentam o debate. Seja como figura histórica ou criação literária, Arthur continua a ocupar um papel relevante na cultura e na historiografia, refletindo a maneira como narrativas podem se formar, evoluir e ganhar significado ao longo dos séculos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.