Hugh Glass: conheça a saga real que inspirou o filme ‘O Regresso’
Atacado por um urso e abandonado na natureza, Hugh Glass sobreviveu a uma travessia extrema e virou lenda do Velho Oeste dos Estados Unidos; confira!

No início do século 19, poucos personagens da fronteira americana reuniram uma trajetória tão extraordinária quanto Hugh Glass — comerciante de peles, aventureiro e sobrevivente cuja história inspirou o filme ‘O Regresso’ (2015). Mais do que o célebre episódio em que sobreviveu a um ataque de urso pardo, Glass viveu uma sucessão de episódios extremos que ajudaram a transformá-lo em uma figura lendária da expansão para o Oeste dos Estados Unidos.
Embora sua origem exata permaneça cercada de incertezas, Hugh Glass provavelmente nasceu por volta de 1783, na Pensilvânia, filho de imigrantes irlandeses. Há poucos registros sobre sua juventude, mas relatos posteriores indicam que ele já trabalhava como marinheiro em 1817. Segundo memórias de contemporâneos, Glass teria passado por uma fase ainda mais incomum: após ter o navio capturado pelo pirata Jean Lafitte por volta de 1820, ele teria sido forçado a integrar a tripulação do corsário para sobreviver.
De acordo com essas narrativas, Glass permaneceu ligado ao grupo de Lafitte por um ou dois anos antes de escapar na região que hoje corresponde a Galveston, no Texas. Depois disso, acabou capturado pela tribo Pawnee e viveu entre seus integrantes durante vários anos. Algumas versões de sua história afirmam que ele chegou a se casar com uma mulher Pawnee, embora esse detalhe não seja confirmado de forma definitiva.
Expedição
A grande virada em sua trajetória ocorreu em 1822, quando Glass aderiu a uma expedição de comércio de peles organizada pelo general William Henry Ashley. O anúncio, publicado em jornal, buscava cem homens para subir o rio Missouri, explorar territórios ainda pouco conhecidos e caçar animais para abastecer o lucrativo mercado de peles. Glass aceitou o desafio e passou a integrar o grupo que ficaria conhecido como “Ashley’s Hundred”.
Nos anos de 1822 e 1823, a expedição avançou pelo rio Missouri em meio a disputas por território e tensões constantes. Em um dos confrontos mais violentos, membros da tribo Arikara atacaram os comerciantes; mas Glass sobreviveu ao episódio e chegou a escrever à família de um companheiro morto para relatar o ocorrido. Na carta, descreveu o ataque de forma direta:
“É com pesar que lhe informo o falecimento de seu filho, que foi morto pelos índios no dia 2 de junho, ao amanhecer… Negociávamos com eles como amigos, mas após uma forte tempestade de chuva e trovões, eles nos atacaram antes do amanhecer e muitos ficaram feridos. Eu mesmo fui atingido na perna. O senhor Ashley está obrigado a permanecer nestas paragens até que os traidores sejam devidamente punidos.”
Ataque de urso e abandonado para morrer
Poucos meses depois, em agosto de 1823, Hugh Glass protagonizou o episódio que o tornaria célebre. Durante uma caçada com cerca de 15 homens, ele surpreendeu uma ursa parda acompanhada de dois filhotes. O animal o atacou com violência, causando ferimentos graves: fratura na perna, perfuração na garganta, cortes profundos nas costas e um grande ferimento no couro cabeludo.

Mesmo em estado crítico, Glass foi colocado em uma maca improvisada e carregado pelos companheiros por algum tempo. No entanto, a lentidão do deslocamento e o temor de novos ataques em território Arikara fizeram o grupo optar por deixá-lo para trás. Dois homens foram designados para permanecer com ele até sua morte: John Fitzgerald e um adolescente chamado Bridges, possivelmente o futuro montanhista Jim Bridger.
Porém, como Glass continuava vivo cinco dias depois, os dois decidiram abandoná-lo. Levaram sua espingarda, faca, machado e ferramentas para fazer fogo, deixando-o sem recursos em plena natureza selvagem, repercute o All That’s Interesting.
Ainda assim, contra todas as expectativas, Glass conseguiu sobreviver. Ao recobrar a consciência, concluiu que estava a cerca de 320 quilômetros de Fort Kiowa, o posto mais próximo onde poderia receber ajuda. Inicialmente rastejando, e depois caminhando com extrema dificuldade, ele iniciou uma travessia de semanas por uma região hostil.
Durante o percurso, sobreviveu com frutas silvestres, raízes, insetos e restos de carcaças de búfalos deixadas por lobos. Em parte do trajeto, encontrou integrantes da tribo Lakota, com quem conseguiu negociar ajuda e uma passagem em um barco de peles. Cerca de seis semanas após o ataque do urso, chegou finalmente a Fort Kiowa.
Surgimento de uma lenda
Depois de se recuperar e conseguir suprimentos, Glass retomou a jornada para reencontrar o grupo de Ashley. Quando conseguiu localizá-los, surpreendeu a todos com sua sobrevivência. Bridges ainda estava no grupo, enquanto Fitzgerald havia partido para se alistar no Exército dos Estados Unidos.
Apesar da fama posterior de sua busca por vingança, o desfecho foi menos violento do que a lenda sugere. Segundo os relatos, Glass perdoou Bridges, entendendo que o jovem havia sido influenciado por Fitzgerald. Já no caso de Fitzgerald, Glass também não levou a vingança adiante, em parte porque o homem estava sob proteção do Exército. A única reparação conhecida teria sido a devolução de sua espingarda.

Nos anos seguintes, Hugh Glass continuou atuando como comerciante de peles e enfrentou novos episódios de risco na fronteira. Sua vida, marcada por sobrevivência extrema e sucessivos confrontos, terminou em 1833, quando foi morto em um ataque da tribo Arikara durante uma viagem pelo rio Yellowstone.
Décadas depois, sua trajetória continuaria a fascinar o público. Entre o ataque do urso, a travessia de centenas de quilômetros e o retorno improvável à civilização, Hugh Glass se consolidou como um dos personagens mais emblemáticos do imaginário da fronteira americana.